Zoonoses e pandemias: o que aprendemos (e esquecemos) com a COVID-19

Gustavo Henrique de Freitas Coelho

Publicado em:
3/1/2026

Resumo

Durante os meses mais sombrios da pandemia de Covid-19, havia uma promessa no ar: a certeza de que, uma vez superada a crise, transformaríamos nossa relação com os animais, os ecossistemas e os sistemas alimentares. No entanto, nada disso aconteceu. A promessa se dissipou, e o esquecimento se instalou. Este ensaio nasce desse contraste entre a gravidade do que vivemos e a negligência com que tratamos suas causas mais profundas. A partir da análise dos fatores estruturais que facilitam o transbordamento de patógenos entre espécies, entre os quais citamos a caça e o comércio de animais silvestres, a criação intensiva de animais, o desmatamento e as mudanças climáticas, o texto articula argumentos que situam as pandemias zoonóticas tanto como previsíveis, quanto evitáveis. Em vez de manter uma postura reativa, é urgente investir em políticas preventivas, reorientar os sistemas alimentares e adotar uma abordagem integrada baseada no paradigma One Health, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, a saúde dos animais não humanos e a integridade ambiental. Não sabemos quando nem onde surgirá a próxima pandemia. Mas sabemos que ela virá, e que provavelmente será de origem zoonótica. E, diante disso, devemos nos perguntar: o que estamos fazendo com o tempo que nos resta?

Palavras-chave:
One Health; Pandemias; Riscos Catastróficos Globais; Zoonoses

Nos meses em que o mundo parou por conta da pandemia de covid-19, quando as ruas silenciaram e o nosso futuro parecia suspenso entre o medo e a incerteza, havia uma promessa pairando no ar, um pacto não escrito firmado entre os sobreviventes. Dizíamos a nós mesmos que aquilo não voltaria a acontecer. Que dali em diante olharíamos com mais seriedade para os alertas da ciência, repensaríamos nossas relações com os animais, protegeríamos os ecossistemas, estaríamos mais unidos e comprometidos para não haver uma próxima vez. Mas a próxima vez começa justamente assim, com o esquecimento. Esquecemo-nos até da origem mais provável daquela crise.

Acredita-se que a pandemia de Covid-19 tenha começado como uma zoonose, em um mercado úmido na China, a partir do contato humano com um animal infectado. Zoonoses são doenças que rompem a barreira entre espécies, transmitidas de animais, silvestres ou domesticados, para seres humanos. Surgiram há milhares de anos, desde que o homem expandiu suas interações com os animais, domesticando-os, mas seu avanço se intensificou nas últimas décadas.

O contágio ocorre por meio do fenômeno conhecido como transbordamento zoonótico, quando um patógeno salta de sua espécie hospedeira original para infectar novas espécies, entre elas, a humana. Esses patógenos podem ser virais, bacterianos, parasitários ou até envolver agentes não convencionais, e sua transmissão se dá por contato direto, alimentos contaminados, água ou interação ambiental. A OMS classifica as zoonoses em duas categorias: as antropozoonoses, doenças transmitidas dos animais aos humanos, e as zooantroponoses, enfermidades transmitidas dos humanos aos animais (Estadão, 2022).

Mais de 200 enfermidades conhecidas hoje se enquadram na categoria das zoonoses, com cerca de 75% de todas as doenças infecciosas humanas novas e emergentes sendo de origem animal. Algumas, como o HIV, começaram como zoonoses e depois se adaptaram exclusivamente aos seres humanos. Outras, como o Ebola, provocam surtos recorrentes. Há ainda aquelas com potencial pandêmico, como foi o caso da Covid-19 (WHO, 2020). E, neste cenário, a mobilidade humana atua como um acelerador, com o fluxo contínuo de pessoas em viagens nacionais e internacionais transformando surtos locais em pandemias globais.

Diante desse panorama, torna-se urgente ir além da lembrança e da lamentação. Precisamos transformar a inquietação em análise concreta, e a análise em ação preventiva. É o que nos propomos a fazer a seguir. Para isso, orientamos esta reflexão a partir de três critérios: a importância do problema, ou seja, sua gravidade e alcance em termos de impacto na vida humana; a negligência, que revela o quanto as prováveis origens desse risco permanecem subestimadas por governos, instituições e pelo próprio debate público; e a tratabilidade, isto é, o grau em que podemos efetivamente mitigar o risco de uma possível pandemia com intervenções factíveis e baseadas em evidências. Ao longo das próximas seções, procuraremos mostrar por que as zoonoses e o risco de novas pandemias ocupam um lugar central entre os desafios globais mais urgentes de nosso tempo, e por que o esquecimento, neste caso, pode custar ainda mais vidas.

Importância

A importância do problema das zoonoses se revela não apenas em sua capacidade de gerar crises globais, mas também em seu impacto persistente sobre as populações mais vulneráveis. Enquanto enfermidades emergentes como a Covid-19 dominaram as manchetes e paralisaram economias inteiras, nos países mais pobres as zoonoses continuam a matar em silêncio, causando milhões de mortes por ano.

Mas, além das perdas humanas, há também o custo econômico, calculado em aproximadamente US$ 212 bilhões por ano (Bernstein et al., 2022). Ademais, outros danos profundos nem sempre são quantificáveis, como o trauma psicológico de quem perdeu parentes, os efeitos do isolamento, do desemprego, das trajetórias escolares interrompidas, entre tantos outros.

Pandemias como a que vivemos são, portanto, apenas a face mais visível de um problema que já custava milhões de vidas mesmo antes da recente emergência global. Tanto o número de vidas perdidas quanto os custos econômicos associados às pandemias zoonóticas têm crescido de forma constante, sinalizando para a gravidade do risco e a tendência de agravamento se nada for feito.

Esse cenário global se torna ainda mais preocupante quando olhamos para o Brasil. Com proporções continentais e uma das maiores biodiversidades do planeta, o país abriga uma vasta gama de animais, vegetais, parasitas e patógenos (muitos ainda pouco conhecidos). Essa riqueza biológica pode, no entanto, se tornar um risco de escala global (Winck et al., 2022). O recente agravamento das vulnerabilidades sociais e ecológicas, impulsionado por políticas ambientais permissivas, aumento da pobreza, expansão desordenada da fronteira agropecuária e desmonte de órgãos de vigilância ambiental, acende um alerta sobre a possibilidade dessa megadiversidade funcionar como uma incubadora da próxima pandemia zoonótica.

Negligência

Apesar da gravidade e do potencial devastador das zoonoses, a resposta institucional e política tem sido, em larga medida, marcada pela negligência. Em vez de investir na prevenção das causas, seguimos investindo na contenção das consequências. A maior parte dos esforços globais até aqui tem se concentrado em respostas reativas, como o desenvolvimento de vacinas e a contenção de surtos, enquanto pouco se faz para evitar que novas pandemias surjam. Se queremos promover uma verdadeira segurança em relação a pandemias em escala planetária, é preciso dar um passo atrás, e identificar e mitigar os fatores estruturais que nos tornam vulneráveis, investigar as condições que favorecem o transbordamento de patógenos entre espécies e agir antes que um novo colapso tenha início.

De fato, estudar pandemias requer humildade. Não sabemos qual patógeno causará a próxima, nem onde ou quando ela surgirá, nem como se comportará. E é justamente por isso que devemos nos concentrar em reduzir os riscos já conhecidos que tornam pandemias cada vez mais prováveis. No caso das zoonoses, essa negligência assume ao menos duas formas: a primeira é a escassez crônica de financiamento para medidas preventivas e sistemas de vigilância; a segunda, mais profunda, é o fracasso em agir sobre os principais focos potenciais de novas pandemias.

Estima-se que o total anual gasto para ações globais “antipandemias”, incluindo monitoramento de patógenos, proteção de ecossistemas e reforma agropecuária, seria de aproximadamente 20 bilhões de dólares. Isso representa menos de 5% do menor valor associado às perdas causadas por novas doenças zoonóticas e apenas um décimo do impacto que elas já exercem sobre o PIB global. De fato, “Ações para prevenir pandemias custam 20 vezes mais barato do que arcar com as perdas em vidas e no PIB ocasionadas por novas zoonoses” (Bernstein et al., 2022; Revista Galileu, 2022). Isto é, gastamos muito mais para remediar do que gastaríamos para prevenir.

Ademais, pandemias como a causada pela Covid-19 não são acidentes imprevisíveis, mas consequências anunciadas de um modo insustentável de habitar o planeta. Vejamos, então, com mais atenção, por que o surgimento de novas pandemias se tornou um resultado já esperado; e como os principais vetores desse risco seguem sendo amplamente negligenciados.

Caça, comércio e consumo de animais silvestres

Trata-se de um conjunto de práticas que expõem o corpo humano a um arsenal invisível de patógenos em cada etapa, da floresta ao prato. Durante a caça, o risco começa no momento em que se adentra a mata, quando o caçador se expõe a picadas de mosquitos, carrapatos e outros vetores de doenças. O perigo aumenta no ato da captura, quando arranhões, mordidas ou cortes podem entrar em contato direto com fluidos de animais selvagens. Continua no preparo da carne, com a manipulação de vísceras muitas vezes oferecidas, inclusive, como alimento cru a cães e gatos domésticos. E culmina no consumo final, sobretudo quando há falhas no armazenamento ou no cozimento. 

No Brasil, uma análise de rede identificou 63 espécies de mamíferos comumente caçados ilegalmente e sua relação com 173 parasitas capazes de causar ao menos 76 doenças diferentes (Winck et al., 2022). Em paralelo, embora a legislação autorize a caça para povos tradicionais em contextos de subsistência, o que se vê é o crescimento de atividades ilegais movidas por interesses comerciais, esportivos ou pelo tráfico de animais silvestres, ampliando os riscos de contaminação.

Em escala global, destacam-se os chamados mercados úmidos, populares em muitos países da Ásia. Nesses espaços, animais silvestres vivos, de diferentes espécies, são vendidos e abatidos no próprio local, o que favorece o salto de patógenos entre animais e, destes, para os humanos. Além disso, o contato direto com fluidos corporais e tecidos de animais feridos ou doentes torna esse ambiente um terreno fértil para o transbordamento zoonótico. Ainda assim, esses mercados persistem como zonas cinzentas entre tradição cultural e risco sanitário, raramente enfrentadas com a seriedade que exigem.

Negligenciamos, portanto, não apenas a ciência que confere a capacidade de senciência aos animais que ali estão sendo explorados, mas a evidência de que as próximas pandemias podem estar sendo incubadas à vista de todos, em plena feira urbana.

Criação intensiva de animais

Se há um símbolo da negligência contemporânea diante do risco pandêmico, ele está nos galpões da agroindústria. Na criação intensiva de animais, o simples fato de reunir milhares de indivíduos da mesma espécie, geneticamente semelhantes, confinados em espaços mínimos, já deveria ser suficiente para acender o alerta, não apenas do ponto de vista ético, mas também sanitário.

Mas o problema não se resume aos maus tratos e a aglomeração. Os sistemas industriais de produção animal operam com fatores que favorecem diretamente o surgimento e a propagação de patógenos altamente virulentos. A escala massiva da operação, com populações de bilhões de animais criados anualmente, torna inviável qualquer controle de biossegurança que seja, ao mesmo tempo, eficaz e economicamente viável. O resultado é um campo fértil para mutações, contaminações cruzadas e disseminações rápidas.

A seguir, examino com mais cuidado três aspectos centrais que tornam a criação intensiva de animais um vetor negligenciado de alto risco: os efeitos da seleção genética, o agravamento da resistência antimicrobiana e o ambiente insalubre onde esses animais são mantidos.

Seleção genética

Projetada para maximizar a produtividade, a seleção genética é realizada para priorizar características como crescimento acelerado, uniformidade corporal e conversão energética. Mas o que se ganha em rendimento, perde-se em resiliência biológica.

Nos frangos ditos de corte, por exemplo, as últimas décadas de melhoramento genético resultaram em aves que crescem até cinco vezes mais rápido do que há cinquenta anos (Ávila-Claudio, 2022). Essa velocidade de crescimento compromete seu sistema imunológico, com a energia que seria destinada à defesa do organismo sendo desviada para a formação de massa muscular. Além disso, a busca por homogeneidade genética (frangos com o mesmo peso, formato e tamanho) torna a população extremamente vulnerável. Um único patógeno com alta capacidade de transmissão pode se alastrar rapidamente entre animais quase idênticos, que compartilham não apenas o espaço, mas também a suscetibilidade biológica.

A pressão por crescimento precoce também afeta os sistemas circulatório e respiratório das aves, tornando-as propensas a doenças metabólicas, insuficiência cardíaca, problemas de locomoção e dores articulares; condições que causam sofrimento intenso aos animais e também favorecem o estresse fisiológico e imunológico, criando condições ideais para a emergência de novos agentes infecciosos.

A seleção genética, nesse contexto, é um experimento biológico em escala industrial, cujas consequências vão do sofrimento para os animais ao risco zoonótico para humanos.

Resistência antimicrobiana

Em condições de confinamento extremo, onde milhares de animais compartilham o mesmo espaço, o estresse crônico se torna regra. Esse estresse prolongado, resultado de aglomeração, privação de estímulos, dores físicas e ausência de comportamentos naturais, compromete profundamente o sistema imunológico, tornando os animais mais suscetíveis a infecções e dificultando sua recuperação quando adoecem. Para evitar surtos que dizimem rebanhos inteiros, é comum que produtores administrem antibióticos de forma rotineira, não apenas como tratamento, mas como medida preventiva.

Essa prática, amplamente disseminada, faz com que cerca de 75% de todos os antibióticos vendidos no mundo sejam destinados a animais criados em sistemas intensivos (World Animal Protection, 2023). O objetivo é garantir que sobrevivam, ao menos, até a idade do abate, dado as condições brutais em que são criados. O uso contínuo de antimicrobianos em larga escala cria o ambiente perfeito para o surgimento de cepas bacterianas resistentes (as chamadas superbactérias), que podem se espalhar com facilidade entre animais, atravessar a barreira das espécies e atingir populações humanas. E o problema não termina no organismo dos animais, pois os resíduos dessas substâncias permanecem nos ambientes de criação, contaminando o solo e a água.

Estima-se que, em 2019, 1,27 milhão de pessoas tenham morrido em decorrência direta de infecções por bactérias resistentes a antibióticos, além de mais 4,95 milhões de mortes relacionadas (Naghavi et al., 2024). 

Criação em ambientes insalubres

Se a seleção genética compromete o sistema imunológico dos animais e a resistência antimicrobiana ameaça a eficácia dos remédios e promove o surgimento de superbactérias, o ambiente insalubre onde esses animais são criados completa o triângulo de risco. Galpões escuros, úmidos e mal ventilados, onde milhares de aves ou suínos permanecem amontoados sobre suas próprias fezes, criam condições ideais para a proliferação de patógenos. Os dejetos acumulados, ricos em material orgânico, mantêm o ar saturado e o chão permanentemente úmido, favorecendo a sobrevivência e a disseminação de vírus, bactérias e fungos. A ausência de luz natural e estímulos ambientais agrava o estresse crônico, já identificado como fator de imunossupressão.

Mas os riscos extrapolam o galpão. A cadeia produtiva da criação intensiva gera resíduos em larga escala (que inclui fezes, sangue, cadáveres, vísceras) muitas vezes descartados em lagoas artificiais ou diretamente no ambiente, contaminando o solo, o ar e os cursos d’água com antibióticos, hormônios e metais pesados. Insetos e animais silvestres podem entrar em contato com esses resíduos e atuar como vetores secundários de agentes infecciosos. Soma-se a isso o transporte constante de animais vivos e a exposição de trabalhadores humanos, criando uma multiplicidade de pontos de contato que, em um sistema desenhado para eficiência produtiva a qualquer custo, torna o controle total de riscos uma ficção. A degradação ambiental causada por essas práticas não é apenas um efeito colateral, mas parte estrutural do modelo. E esse modelo, como temos visto, maltrata os animais e também nos expõe, a todos, a perigos que transcendem espécies e fronteiras.

Desmatamento e mudanças climáticas

Em meio à crescente devastação de habitats naturais, o elo entre degradação ambiental e surgimento de zoonoses torna-se cada vez mais evidente. Quando destruímos ecossistemas, obrigamos os animais silvestres a fugir de seus territórios originais, empurrando-os para zonas de contato com rebanhos, animais domésticos e seres humanos. Nessa transição forçada, patógenos que antes circulavam de forma restrita encontram novas oportunidades de atravessar a barreira das espécies. A expansão de terras agrícolas, sobretudo em áreas próximas a centros urbanos ou assentamentos humanos, intensifica ainda mais essa exposição.

Além disso, o desmatamento reduz a biodiversidade, e com ela, perdemos espécies que atuam como reguladoras naturais de patógenos, quebrando ciclos de transmissão e evitando o alastramento descontrolado de vírus. Ao empobrecer os ecossistemas, criamos ambientes onde patógenos encontram menos barreiras e mais oportunidades.

Mas os riscos não vêm apenas da motosserra; vêm também do colapso climático. À medida que as temperaturas sobem e os regimes de chuva se alteram, espécies inteiras são forçadas a migrar em busca de condições mínimas de sobrevivência. Em terra ou no mar, esse deslocamento desorganiza redes ecológicas complexas, aproximando espécies que antes não interagiam e abrindo novas rotas para a circulação de vírus e bactérias (Carlson et al., 2022). Quanto mais instável o clima, mais instável o equilíbrio epidemiológico.

Tratabilidade

Se o surgimento de uma zoonose pode ser desencadeado por múltiplos fatores, sua transformação em pandemia depende, em grande parte, da forma como respondemos a ela. O que começa como um surto localizado pode ser contido, ou pode atravessar fronteiras, colapsar sistemas de saúde e redefinir o curso da história. Nesse sentido, a tratabilidade não diz respeito apenas à capacidade de reagir a emergências, mas também à disposição para agir antes que elas comecem. Envolve, portanto, tanto o monitoramento eficaz quanto a intervenção nas causas estruturais que tornam esses eventos cada vez mais prováveis.

Diante disso, destacamos dois caminhos promissores, complementares e urgentemente necessários: o investimento no desenvolvimento de proteínas alternativas, que podem reduzir tanto o sofrimento imposto aos animais como nossa dependência de sistemas alimentares de alto risco, e a adoção do paradigma One Health, que reconhece a interdependência entre saúde humana, saúde animal e integridade ambiental.

Proteínas alternativas

Se a criação intensiva de animais está na raiz de tantos riscos (desde pandemias até a emergência de superbactérias, degradação ambiental e maus tratos aos animais), é inevitável que nos perguntemos: existe outro caminho? A resposta, cada vez mais clara, é sim! E esse caminho passa pelo desenvolvimento e pela adoção de proteínas alternativas.

Diferentemente dos sistemas tradicionais de produção animal, as proteínas alternativas unem a eficiência industrial à completa redução de riscos sanitários. São produzidas sem o envolvimento direto de animais e, por isso, eliminam a possibilidade de transbordamento zoonótico, interrompem os ciclos de resistência antimicrobiana e evitam a contaminação dos alimentos; tudo isso com menor impacto ambiental e maior transparência nos processos produtivos.

Historicamente, muitas das epidemias com potencial pandêmico ao longo do último século tiveram origem na captura, criação ou abate de animais destinados ao consumo humano. E mesmo com o avanço da tecnologia, os modelos intensivos de criação animal permanecem estruturalmente vulneráveis à proliferação de patógenos. É nesse ponto que a inovação pode cumprir um papel decisivo, ao superar um sistema intrinsicamente falho e cruel.

Hoje, já é possível encontrar no mercado produtos vegetais que replicam textura e sabor da carne de animais, assim como iniciativas crescentes em torno da carne cultivada em laboratório (uma tecnologia que, com o apoio de investimentos e pesquisas, tende a se tornar mais acessível e presente nas prateleiras). A preparação para futuras pandemias exige, entre outras coisas, que reavaliemos as bases do nosso sistema alimentar, o que tornam as proteínas alternativas uma ótima aposta para um futuro com menos sofrimento animal e mais seguro para todos.

One Health

Se há um legado que deveríamos extrair da pandemia de COVID-19, é o reconhecimento de que nenhuma tecnologia, por mais avançada, pode compensar a ausência de políticas públicas preventivas e de uma visão sistêmica da saúde. A resposta mais promissora para os desafios sanitários do século XXI, portanto, talvez esteja menos nos laboratórios e mais na maneira como nos relacionamos com o mundo vivo. É essa a proposta do conceito de One Health, uma abordagem que entende que a saúde humana, a saúde animal e a integridade dos ecossistemas não são domínios separados, mas partes de um mesmo corpo interdependente.

Desde o início dos anos 2000, One Health tem sido promovido como um modelo multidisciplinar e global, unindo saberes da saúde pública, da medicina veterinária e da ecologia. Mas seu potencial vai além da técnica, englobando, sobretudo, uma mudança ética e política; uma convocação para rever o nosso lugar no mundo e reformular a forma como nos relacionamos com os animais e os ambientes naturais. Promover One Health é agir sobre as causas das zoonoses, e não apenas sobre seus efeitos. Isso implica proteger a biodiversidade, enfrentar o tráfico de animais silvestres, investir em sistemas de vigilância epidemiológica integrados e adotar práticas alimentares sustentáveis. Implica, ainda, reconhecer que vírus (de origem em animais humanos ou não humanos) não respeitam fronteiras, e que enfrentá-los exige cooperação internacional, ciência aberta e governança global.

Enquanto insistirmos em tratar saúde humana como um sistema isolado, continuaremos vulneráveis a crises previsíveis. One Health nos oferece uma bússola, ao apontar para um futuro em que cuidar de nós mesmos depende, antes, de aprender a cuidar do planeta e de todas as formas de vida que o habitam.

Por fim, é legítimo perguntar: o que pode fazer, de forma prática e ativa, a comunidade do Altruísmo Eficaz diante desse cenário? A resposta passa por múltiplas frentes de ação. Em primeiro lugar, apoiar, com financiamento, pesquisa e advocacy, o desenvolvimento e a disseminação de proteínas alternativas, especialmente aquelas com potencial de escala em países de baixa e média renda. Por exemplo, apoiando e divulgando o trabalho do Good Food Institute. Em segundo, investir na criação e no fortalecimento de sistemas globais de vigilância epidemiológica, com foco preventivo e alinhados ao paradigma One Health. Também é essencial pressionar por reformas nas cadeias alimentares e políticas agrícolas, com base em evidências científicas, e promover a educação pública sobre os vínculos entre consumo de produtos de origem animal, degradação ambiental e riscos pandêmicos. Por fim, a comunidade pode atuar como ponte entre ciência e decisão política, ajudando a traduzir dados em prioridades morais, e inércia em ação coordenada. Se queremos evitar o próximo desastre, e ele virá, precisamos começar agora.

Referências

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