1 INTRODUÇÃO
Discutir a valorização da vida animal no Brasil exige muito mais do que considerar práticas alimentares individuais ou princípios éticos universais. Em um país marcado por desigualdades históricas profundas, a vida animal está intrinsecamente ligada a estruturas de poder, pobreza, exclusão e resistência. A formação do Brasil como sociedade agroexportadora e escravocrata, como analisa Caio Prado Júnior (1942), moldou uma lógica social utilitária, na qual tanto humanos quanto animais foram instrumentalizados em função da produção e do acúmulo de riqueza.
Essa estrutura permanece viva em diversos aspectos da sociedade contemporânea. A vida animal, longe de ser vista apenas como parte de um ecossistema ético, ocupa múltiplas funções práticas: transporte, limpeza urbana, segurança, sustento e trabalho (PADOVEZI, 2025). Em comunidades onde o Estado é ausente, como na Rocinha, porcos são utilizados como forma improvisada de controle de resíduos — uma adaptação forçada à negligência estrutural. A presença desses animais, nesses contextos, revela mais sobre a desigualdade do que sobre a crueldade.
Neste cenário, a proposta de ampliação do “círculo moral”, conceito central na obra de Peter Singer (1981), enfrenta desafios específicos. Embora moralmente desejável, essa expansão depende de condições materiais, culturais e cognitivas que nem sempre estão presentes em sociedades marcadas pela escassez e pela desinformação. Este ensaio propõe analisar os entraves à expansão do círculo moral no Brasil a partir das influências socioculturais que moldam a relação da população com os animais, buscando entender por que a valorização da vida animal permanece, muitas vezes, restrita a nichos privilegiados.
2 CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIOCULTURAL DA RELAÇÃO COM OS ANIMAIS
A relação entre seres humanos e animais no Brasil está profundamente enraizada em um passado de exploração econômica. O país foi fundado sobre uma lógica agroexportadora, cuja base era a escravidão e o uso intensivo da terra e da força de trabalho, humana e animal (PRADO JÚNIOR, 1942). Esse modelo, centrado na produtividade e na apropriação de recursos naturais, consolidou uma visão utilitária da natureza, na qual os animais foram sistematicamente reduzidos à condição de instrumentos.
Essa herança não se desfez com o tempo. Ao contrário, ela se ressignificou nas práticas do agronegócio moderno, na reprodução de desigualdades regionais e no abandono sistemático das populações mais pobres. Hoje, animais ainda desempenham papéis funcionais em comunidades empobrecidas, como cavalos utilizados para transporte no interior ou os porcos da Rocinha, que ocupam funções sanitárias em locais onde o Estado é ausente. Esses exemplos não refletem um desprezo pela vida animal, mas sim estratégias de sobrevivência diante da omissão do poder público.
Além disso, a própria ideia de proteção animal é, muitas vezes, vista como um luxo nas periferias brasileiras. A proteção à vida animal aparece como uma pauta distante da realidade de quem sofre com a fome, o desemprego ou a falta de saneamento básico. Nesse cenário, os animais tornam-se parte da lógica de resistência à exclusão social, e não alvos primários de políticas públicas ou de ética social.
2 CÍRCULO MORAL E LIMITES PRÁTICOS À SUA EXPANSÃO NO BRASIL
O conceito de 'círculo moral', discutido por Peter Singer, parte da ideia de que o ser humano tem a capacidade de estender sua empatia e consideração ética para além de seu núcleo imediato — incorporando outros grupos humanos, e eventualmente, animais não-humanos. Essa expansão moral é frequentemente associada ao avanço da civilização, da empatia e da justiça social. No entanto, no contexto brasileiro, marcado por desigualdades estruturais e profundas feridas históricas, essa expansão enfrenta barreiras que são, ao mesmo tempo, materiais e simbólicas.
O Brasil é um país fundado sobre um modelo agroexportador e escravocrata, cuja lógica ainda se reproduz nas relações fundiárias, nas estruturas de trabalho e nas assimetrias regionais. A violência estrutural que atinge populações negras, indígenas e periféricas também se manifesta na forma como os animais são explorados em diversos contextos — do agronegócio à subsistência urbana.
Discutir a inclusão de animais no nosso círculo moral em um país onde milhões de pessoas vivem em situação de fome, insegurança alimentar ou sem acesso a serviços básicos é, portanto, um desafio ético e político de grande complexidade. Como falar em compaixão universal se a compaixão ainda não chegou de forma plena nem mesmo entre os humanos? Como esperar que uma população privada de dignidade material desenvolva um senso de responsabilidade global e interespécie?
Não se trata de negar a importância da luta pelos direitos animais, mas de reconhecer que o debate precisa considerar a realidade social em que está inserido. A moralidade, como mostram os estudos em psicologia moral e filosofia prática, é sensível ao contexto: e no Brasil, esse contexto é de profunda desigualdade, desinformação e marginalização de grandes parcelas da população.
É necessário compreender que os limites para a expansão do círculo moral não estão apenas na falta de informação ou empatia, mas na estrutura desigual que define o valor das vidas — humanas e animais — de forma hierárquica e utilitária. Enquanto não houver transformação estrutural e redistribuição de poder, o círculo moral continuará limitado àqueles que têm o privilégio de escolher, refletir e agir sobre suas convicções éticas.
Reconhece-se aqui a necessidade de aprofundamento teórico e empírico, bem como de estudos futuros que investiguem com mais precisão quais caminhos podem gerar maior impacto positivo no cenário atual. É fundamental, sobretudo, que a ética não seja dissociada da realidade: e que a luta pela justiça — humana e animal — seja sempre uma luta por dignidade, igualdade e reconhecimento em múltiplas dimensões.
O conceito de círculo moral — segundo o qual ampliamos, ao longo do tempo, o conjunto de seres aos quais estendemos nossa consideração ética — é um dos principais pilares do pensamento moral contemporâneo (SINGER, 1981). No entanto, sua expansão está condicionada a fatores materiais, culturais e simbólicos. Não é apenas uma questão de empatia ou de informação, mas de acesso, privilégio e contexto.
Em países como o Brasil, marcados por desigualdades extremas, a ideia de estender o mesmo valor de vida a humanos e animais enfrenta resistências profundas. Não se trata apenas de uma barreira cultural, mas de uma lógica de escassez: onde a dignidade humana ainda não é garantida, falar em direitos animais soa deslocado. Como esperar que uma pessoa em situação de rua, um agricultor atingido por eventos climáticos extremos, ou uma mãe solo vivendo em um bairro sem saneamento, priorize a discussão sobre sofrimento animal?
Essa não é uma crítica moralizante à população, mas uma constatação da estrutura: a desigualdade torna o altruísmo seletivo. Como argumenta MacAskill (2015), o impacto de nossas escolhas deve ser maximizado. Porém, no Brasil, o impacto ético se confunde com o impacto emergencial. Ampliar o círculo moral em uma sociedade onde ainda se luta pelo básico é uma tarefa que exige mais do que argumentos filosóficos — exige transformações estruturais e reconhecimento das limitações reais das populações mais vulneráveis.
3 A FUNÇÃO SOCIAL DOS ANIMAIS NA POBREZA URBANA E RURAL
A função dos animais em territórios periféricos e rurais no Brasil é multifacetada. Eles são transporte, segurança, sustento, companhia, ferramentas de trabalho e — em alguns casos — serviços públicos improvisados. A presença de porcos em favelas, como na Rocinha, é um exemplo claro disso. Com a ausência de coleta regular de lixo, famílias recorrem à criação desses animais para lidar com os resíduos. Os porcos passam a ocupar um papel de saneamento informal. São agentes substitutivos do Estado.
Esse fenômeno também aparece em áreas rurais, onde cavalos e jumentos ainda são meios de transporte essenciais para comunidades isoladas. Retirar esses animais dessas funções sem oferecer infraestrutura equivalente seria não apenas cruel, mas inviável. O animal, nesse contexto, é parte de uma ecologia social da pobreza — onde o cuidado com a vida, humana ou animal, é moldado por dinâmicas de sobrevivência e não por princípios éticos universais.
Ignorar essa realidade é descontextualizar o debate sobre a vida animal. A moralidade precisa ser situada. A consideração ética pelos animais é dificultada e ofuscada quando o básico ainda falta. O desafio, portanto, está em reconhecer que os papéis atribuídos aos animais estão diretamente ligados à ausência de políticas públicas eficientes e ao abandono histórico das populações mais vulneráveis.
4 A ELITIZAÇÃO DO DISCURSO VEGANO E OS LIMITES DA EMPATIA PÚBLICA
O veganismo, enquanto prática ética, é uma proposta transformadora. No entanto, no Brasil, ele é frequentemente percebido como elitista. Essa percepção não decorre apenas do custo de produtos industrializados voltados a esse público, mas de sua associação com discursos que parecem distantes da realidade vivida por boa parte da população.
A alimentação vegana, em termos de custo e preparo, pode ser financeiramente acessível. No entanto, a ausência de informação, aliada a um histórico alimentar profundamente enraizado em práticas 'carne-centradas', torna esse modelo alimentar conceitualmente distante. A narrativa dominante do veganismo ainda gira em torno de marcas, produtos e estilos de vida incompatíveis com a rotina das periferias. O foco na substituição direta de produtos — carnes vegetais, leites de castanhas, queijos veganos — reforça a impressão de que o veganismo seria uma alternativa gourmet, e não uma transformação ética de base.
Essa ignorância alimentar não é fruto da falta de vontade individual, mas de um processo histórico e estrutural de desinformação, no qual políticas públicas pouco investiram na educação nutricional crítica e na valorização de práticas alimentares sustentáveis e populares. Em um país onde o ato de se alimentar ainda é, para muitos, um exercício de sobrevivência, pensar em escolhas éticas à mesa exige antes reconhecer as desigualdades profundas que atravessam o acesso, o conhecimento e o direito à alimentação.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A valorização da vida animal no Brasil enfrenta desafios que vão muito além da empatia ou da vontade individual. Ela esbarra em estruturas econômicas, históricas e culturais profundamente enraizadas, que definem quem pode escolher e quem precisa sobreviver.
Expandir o círculo moral em uma sociedade marcada por desigualdades extremas não é apenas uma questão de convencimento ético, mas de transformação estrutural. É necessário reconhecer que o cuidado com os animais não pode ser desvinculado da luta por dignidade humana. A ética só é efetiva quando enraizada na realidade.
Portanto, mais do que propor soluções universais, este ensaio argumenta que qualquer avanço na valorização da vida animal precisa partir de um olhar interseccional e crítico, que compreenda o papel social dos animais na pobreza, a desigualdade de acesso à informação e os limites de uma moralidade abstrata em um país concreto. Somente ao entender a complexidade do contexto brasileiro será possível pensar em uma ética verdadeiramente inclusiva — para humanos e não humanos.
REFERÊNCIAS
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