1 INTRODUÇÃO
A sociedade contemporânea, indubitavelmente, se mostra pautada pelo antropocentrismo, onde os animais não-humanos, em especial os inseridos no sistema alimentar pela produção intensiva, sequer são visualizados como indivíduos sencientes e sujeitos de direitos.
Contudo, em que pese essa contextualização, alguns avanços estão sendo percebidos na pauta animalista em prol dos direitos dos animais, em especial na construção do conhecimento científico nas mais diversas áreas, como filosofia, direito, biologia, ecofeminismo, dentre outras em interface. Indubitável, também, que parece haver uma unanimidade entre os pesquisadores e ativistas quanto à necessidade do desenvolvimento de políticas educacionais para viabilizar essa mudança paradigmática, que hodiernamente encontra-se sob o manto antropocêntrico e especista. Educação Animalista, Educação Humanitária, Educação Antiespecista, Educação Vegana, constituem propostas que vem sendo difundidas, mas, com certa timidez. Nesse contexto, então, indagações começaram a exsurgir como motivadoras para este ensaio.
Como os materiais pedagógicos, livros didáticos, da educação básica (ensino fundamental), estão contemplando os animais inclusos nos sistemas alimentares? Quais as linguagens utilizadas?
As políticas públicas, a exemplo da Base Nacional Comum Curricular, estão aptas a viabilizar essa mudança paradigmática?
Seria possível mitigar o sofrimento dos animais não-humanos a partir do ativismo animal por intermédio da educação formal?
Para o desenvolvimento deste ensaio, buscamos substratos bibliográficos e referenciais virtuais, procedendo com a análise de documentos norteadores das políticas públicas pertinentes à educação (como os Temas Contemporâneos Transversais), optando, também, pelo método de análise semiótica das representações (ilustrações e escrita) contidas nos livros didáticos de ensino fundamental para análise e interpretação.
O desenvolvimento encontra-se em três capítulos, partindo-se, prefacialmente e de modo sucinto, pela apresentação da pauta animalista e seus desafios basilares, como a dificuldade de interlocução entre os campos do saber consideradas suas imbricações decorrentes do habitus (Bourdieu, 1983) e da linguagem, além dos desafios metodológicos para um ativismo eficaz.
No segundo capítulo, buscamos analisar e investigar as possibilidades de mitigação do sofrimento dos animais não-humanos, pensando-se já de modo mais instrumental para tanto. Ou seja, consideramos os professores do ensino fundamental e seus saberes, como o primeiro público-alvo dos materiais pedagógicos – livros didáticos, e, como, a partir destas obras os animais não-humanos são apresentados no conteúdo curricular, de modo a viabilizar o desenvolvimento da temática criticamente em sala de aula.
No terceiro e último capítulo, adentramos na análise semiótica das linguagens contidas nos livros no que pertine aos animais, ditos de produção, sopesando com os conceitos de abstração, objetificação e desindividualização perante os sistemas alimentares, especulando-se a observância, ou não, ao bem-estar animal.
2 APRESENTAÇÃO DA PAUTA ANIMALISTA E DESAFIOS DO ATIVISMO
Indubitavelmente, tratar da temática animalista, por algum viés que não seja o impregnado no contexto cultural e confortável do eixo antropocêntrico não constitui tarefa singela para desenvolvimento de demandas ativistas.
Assim, iniciando nossa viagem, temos que, em termos gerais preliminares, e, sob o enfoque metodológico, uma das primeiras reflexões que necessitamos realizar quando buscarmos fomentar temas que venham a impactar e/ou questionar padrões morais, culturais, econômicos e sociais, dentre outros já arraigados na sociedade tradicional, exterioriza-se em determinada indagação preliminar e desafiadora, qual seja: como apresentar uma novel temática de modo a alcançar, pelo menos, alguma transformação de paradigmas?
O questionamento é necessário, sob pena de, ao refutá-lo, desprezarmos não só o como apresentar determinada temática, mas, com certeza, a simbiose que permeia esse agir, considerando-se as inúmeras imbricações com outras áreas do conhecimento com que determinada pauta poderá dialogar. O para quem, indistintamente, se mostra necessário observar, sob pena de um monólogo tedioso e inócuo diante de determinada comunidade, pois poderá, se não considerada as peculiaridades do público alvo, tornar-se ineficaz na difusão de um ideal aspirado, como no caso da pretensão ativista em prol dos animais. Assim, um dos desafios que poderão sobressair se insere no campo da linguagem, partindo-se do pressuposto de habitus [1] balizado por Bourdieu (1983), bem como de que
A língua não é somente um instrumento de comunicação ou mesmo de conhecimento, mas um instrumento de poder. Não procuramos somente ser compreendidos mas também obedecidos, acreditados, respeitados, reconhecidos. Daí a definição completa da competência como direito à palavra, isto é, a linguagem legítima como linguagem autorizada, como linguagem de autoridade (BOURDIEU, 1983, p. 160-1).
Nesse contexto, a inobservância de um estudo de critérios para o pretendido de forma eficaz, poderá refletir em situações, onde o conhecimento possa ficar recluso a determinados campos (acadêmicos, por exemplo). Assim, restando cingido a discussões restritas entre seus pares de pesquisa, não externando ou dialogando com outros movimentos, espaços e campos do saber, a mudança paradigmática almejada, muito provavelmente estará fadada ao insucesso.
Aproximando-se ao tema deste ensaio, inúmeras são as searas do conhecimento que abarcam a discussão animalista, cada uma com suas especificidades de conteúdo, linhas de pesquisa, atuação e linguagens próprias, algumas com mais tempo de desdobramento na abordagem e, outras, que estão despertando para essa pauta.
Nesse cenário, destacamos, que na dinâmica metodológica ativista também consiste o desafio de selecionar e avaliar as causas a serem priorizadas, os problemas a se dar destaque nessas causas, bem como a definição das melhores estratégias de abordagem das problemáticas elegidas (Cunha, 2025).
3 FUNDAMENTOS BASILARES ANIMALISTAS, TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS E PROFESSORES – COMPREENDENDO ESPAÇOS E SUJEITOS
Sintonizando os desafios com o foco central de nossa abordagem, o problema que buscamos analisar cinge-se a investigar possibilidades de mitigar o sofrimento dos animais na produção de alimentos por intermedio da educação formal e do ativismo. Para tanto, temos que analisar, reiterando, o como apresentar esse tema, delimitando-se o para quem - público alvo, almejando-se explorar alternativas que possam, no atual momento da pesquisa, desenvolver estratégias para sensibilizar públicos que venham a tornar-se multiplicadores de ações positivas em prol da vida dos animais, ditos de produção (gado, vacas leiteiras, galináceos, suínos, ovinos, dentre outros).
Intencionalmente, observamos, que referimos animais de produção em itálico, por discordarmos desta terminologia que, de início, já traduz, sob nosso ponto de vista, um viés meramente utilitário, uma espécie de fordismo que reflete na objetificação dos animais não-humanos atrelada ao intuito lucrativo. Parece-nos desconforme que, em pleno século XXI, esses seres ainda continuem a ser considerados produtos e meras commodities na economia global, o que, ao final, acaba por ratificar o paradigma atual que despreza a condição senciente dos inseridos na dita cadeia produtiva.
Veja-se que a senciência (reconhecida e atestada na Declaração de Cambridge de 2012 [2]), em suma, atesta a capacidade dos seres de “sentir”, de ter experiências positivas e negativas, sendo conceituada como
[...] a capacidade de ser afetado positiva ou negativamente. É a capacidade de ter experiências. Não é a mera capacidade para perceber um estímulo ou reagir a uma dada ação, como no caso de uma máquina que desempenha certas funções quando pressionamos um botão. A senciência, ou a capacidade para sentir, é algo diferente, isto é, a capacidade de receber e reagir a um estímulo de forma consciente, experimentando-o a partir de dentro (Animal-ethics.)
Contudo, em que pese nossa inconformidade com a realidade, a compreensão corrente é a mercadológica, tanto que, em cursos de formação de profissionais, como Medicina Veterinária e Zootecnia, a visão fordista, utilitária, bem como antropocêntrica pode ser confirmada na caracterização desse último curso, onde, tem-se que nele “estuda-se a criação, a conservação, a produção e o melhoramento genético animal, com ênfase para os animais de importância econômica [...] com a perspectiva de compreender suas relações, preservação e suas utilidades e serviços úteis ao homem [...]”. [3]
Nesse passo, já passível percebermos a aridez da trajetória, vez que pela própria terminologia (linguagem) e tratamento atribuído aos animais não-humanos e respectiva inserção destes em uma cadeia produtiva no modelo capitalista, som um viés utilitário, além da desconsideração pelo reconhecimento da senciência, o especismo também acaba por transparecer.
Diante tais apontamentos, a questão que retomamos é a indagação de como podemos desenvolver possibilidades e habilidades modificatórias dessas concepções tão arraigadas, sendo que, para tanto, acreditamos na educação, como via transformadora, até pelo fato de constituir ela, um dos direitos sociais elencados na lei maior brasileira - Constituição Federal de 1988 [4], logo, política pública.
Assim, para fins desse ensaio, procedemos com a investigação do problema, partindo da análise qualitativa e aleatória de livros didáticos do ensino fundamental brasileiro, com vistas a se analisar como os animais de produção são apresentados e contextualizados na educação formal, considerando que os livros constituem instrumental pedagógico comum a maior parte dos docentes em sala de aula.
O público alvo escolhido para apresentação dos dados obtidos será constituído, futuramente e na continuidade da pesquisa, nos professores do ensino fundamental, haja vista que são eles que possuem a expertise pedagógica, para, inicialmente, difundir o conhecimento e propiciar o diálogo investigativo, reflexivo e construtivo com os alunos na interação com a comunidade escolar.
Elegido o público alvo, justificada resta a escolha de livros didáticos para, em um primeiro momento, apresentar o problema, haja vista que, repisando, o material pedagógico integra o cotidiano, inserto, ademais, no habitus dos professores, oportunizando a aproximação com a discussão, além de considerar e dialogar com os saberes docentes, os quais, conforme preleciona Tardif (2014) são constituídos pelos de formação profissional, disciplinares, curriculares e os experienciais.
Entretanto, inolvidável que, ao apresentarmos o tema relacionado à sistemas alimentares, cuja origem provenha da exploração animal, temos que coadunar a análise do verificado nos livros didáticos, considerando que os professores, são, muito provavelmente e em maioria [5], sujeitos consumidores de produtos alimentícios de origem animal em vista de suas experiências pessoais rotineiras e culturais o que, de acordo com Tardif (2014), também integra os saberes experienciais. Assim, explícito um forte cunho atitudinal, nos parece bastante considerável que as posturas, sentimentos, as atitudes dos professores como consumidores e como cidadãos, estarão permeando a própria atividade profissional dos mesmos no desenvolver do tema nos espaços pedagógicos.
Contudo, entendemos necessário considerar a vivência dos docentes como sujeitos consumidores, entretanto, conjugando com a condição de expertise profissional, haja vista que o consumo, na educação, consta previsto na Base Nacional Comum Curricular – BNCC [6] enquadrando-se como tema contemporâneo transversal – TCT. Conceitualmente, os
Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) buscam uma contextualização do que é ensinado, trazendo temas que sejam de interesse dos estudantes e de relevância para seu desenvolvimento como cidadão. O grande objetivo é que o estudante não termine sua educação formal tendo visto apenas conteúdos abstratos e descontextualizados, mas que também reconheça e aprenda sobre os temas que são relevantes para sua atuação na sociedade. (BRASIL, 2019, p. 8)
Chama atenção que os TCTs, conforme veremos na figura colacionada a seguir, viabilizam a apresentação da reflexão sobre a exploração dos animais nos sistemas alimentares, em especial na pecuária intensiva, pela interface de vários outros temas, que não exclusivamente o consumo.
Figura 1 – Organograma dos Temas Contemporâneos Transversais, contidos na Base Nacional Curricular Comum, distribuídos em seis macroáreas temáticas com as respectivas subdivisões.

Fonte: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/implementacao/contextualizacao_temas_contemporaneos.pdf
Como ilustrado na figura, Educação Ambiental, Educação para o Consumo, Saúde, Economia, Educação Alimentar e Nutricional, todos esses temas, ao nosso entender, permitem a interlocução com aquilo que se encontra “à mesa”, tanto dos lares, como no caso de escolas que disponibilizam alimentação. Nesse contexto, questões éticas, inclusive, mostram-se em muito pertinentes para pontuação, pois viabilizam a aproximação acerca da origem e logística que permeia o sistema alimentar, as perdas das vidas dos animais não-humanos, a desconsideração pela senciência dos mesmos, o referencial ausente nesses animais configurados como de produção, a movimentação econômica que circunda a criação intensiva na pecuária, dentre outras investigações e reflexões, que, indubitavelmente levarão a conhecer os animais considerados por si próprios, bem como questionar o bem-estar destes no contexto dos TCTs.
4 A CIRANDA PEDAGÓGICA DOS ANIMAIS NÃO-HUMANOS NOS LIVROS DIDÁTICOS NO ENSINO FUNDAMENTAL: SERÃO ELES SOMENTE ABSTRAÇÕES?
Inserindo-se no cerne desta expedição exploratória, cabe aportar que a consulta aos livros didáticos do ensino fundamental deu-se, primeiramente, de forma física com acesso a exemplares por amostragem e em quantidade reduzida, considerando-se o intuito qualitativo da abordagem, atrelado à impossibilidade de análise mais abrangente, devido o vasto número de exemplares em conformidade com as editoras, as divisões por áreas de concentração curricular (Ciências, Geografia, História, Matemática, Artes) e anos escolares. Esse contato inicial com os materiais ocorreu quando em visita a uma escola de ensino fundamental da rede pública municipal [7], partindo-se, posteriormente, para consultas pelas vias digitais, onde as obras pedagógicas disponibilizadas foram consultadas, observando-se o critério já aventado de amostragem, o que define a análise como qualitativa acerca das imagens coletadas e respectivos apontamentos.
Iniciamos assim, com excertos ilustrativos extraídos do exemplar da Área de Ciências da Natureza do terceiro ano do ensino fundamental, todos insertos na Unidade 3 do livro didático Pitanguá - Manual do Professor.
Figura 2 - Unidade 3 – Observando os Animais. Ponto 6: Alimentação dos animais. A imagem é uma ilustração com a representação de pessoas e animais se alimentando em um sítio.

Fonte: p.106-107
https://www.calameo.com/read/006940219f4ce3c9cd113?authid=rirrJbwWBaG5
Figura 3 - Unidade 3 – Observando os Animais. Ponto 6: Alimentação dos animais. A imagem, com breve introdução textual acerca dos hábitos alimentares dos animais, traz uma fotografia de galinhas alimentando-se em um ambiente aberto, com gramíneas verdes.

Fonte: p. 108
https://www.calameo.com/read/006940219f4ce3c9cd113?authid=rirrJbwWBaG5
Da análise das figuras (2 e 3), indubitável, o contexto visual idílico que se expõe. Todos os animais encontram-se ao ar livre, com galinhas sendo alimentadas com grãos por uma criança ou com gramíneas verdejantes. Os porcos estão em local específico com lama, alimentando-se, ao que parece, com legumes, o bezerro está mamando em sua mãe e, ambos estão sobre um pasto verde, refletindo uma visão harmônica, confortável e bela dos animais quando no momento da alimentação.
Para pesquisadores e ativistas em prol dos direitos dos animais, nada mais óbvio que tais imagens não coadunam com a realidade, eis que, na maior parte das criações destinadas ao sistema alimentar para humanos, a exploração se insere de forma intensiva, onde pesquisas e experiências [8] de modificações genéticas constituem foco rotineiro, com vistas à melhoria dos produtos, além de condutas em desacordo com as práticas de bem-estar animal.
Veja-se que, diferentemente do ilustrado (figura 2), raramente os bezerros podem alimentar-se junto às suas mães, pois a produção do leite é destinada aos humanos, o que pode ser exemplificado pelos resultados oriundos de uma investigação realizada, entre novembro de 2023 e fevereiro de 2024 na Espanha pela Animal Equality (2025). A pesquisa constatou, que “os bezerros recém-nascidos são separados de suas mães imediatamente após o nascimento, impedindo-os até mesmo de beber colostro, o primeiro leite produzido pela vaca, que é muito importante para fortalecer seu sistema imunológico”, prática ocorrente na maior parte das fazendas e reproduzida em vários outros países.
No Brasil, uma investigação realizada em 2023 pela Sinergia Animal (Organização Internacional de Defesa dos Direitos dos Animais), apurou, violação da legislação brasileira em práticas de uma fazenda leiteira que, apesar de alegar o cumprimento das regras de bem-estar animal, os bezerros, em especial os machos, não costumavam receber o colostro em quantidades adequadas, sendo que, “na maioria das vezes, o colostro é dado ‘só para as fêmeas. Os machos bebem também, as sobras. Até o dia que o cara [do frigorífico] leva embora, né?” (Sandoval, 2024).
E, como se não bastasse a prática restritiva de colostro, os bezerros machos ainda eram descartados prematuramente, embarcados em direção a um abatedouro com apenas poucos dias de vida ou horas após nascerem, conforme constatado na investigação da Sinergia Animal (Sandoval, 2024).
Em relação aos galináceos, seja na figura 2, como na 3, o viver em liberdade também constitui, praticamente, uma falácia visual na criação intensiva. Galinhas poedeiras, habitualmente, vivem a maior parte de sua existência confinadas em pequenas gaiolas, passando, preliminarmente, pelo processo de debicagem sem nunca pisar em um solo natural, já que passarão suas vidas em ambientes artificiais e sem luz natural até o momento da morte ou abate.
A indústria de ovos vem sendo foco de várias pesquisas [9]e investigações quanto à ocorrência de maus-tratos. Na Itália, a Essere Animali, comprovou, in loco, que ovos anunciados como sendo campeiros, eram provenientes de galinhas que nunca tiveram a oportunidade, sequer, de ver a luz do sol, amontoadas, sem contar que eram jogadas vivas “pelos ares, chutadas por operários e até usadas para bater com crueldade em outros animais” (Cabezas, 2019).
Na segunda obra analisada, as figuras extraídas constituem excertos do exemplar da Área de Geografia, do quarto ano do ensino fundamental, do livro didático do Manual do Professor.
Figura 4 – Capítulo 4 – Da produção ao consumo. A imagem é uma ilustração da troca de recursos entre a cidade e o campo com breve aporte textual prefacial.

Fonte: p. 114
Figura 5 – Capítulo 4 – Da produção ao consumo. A imagem apresenta ilustrações e fotografias do ciclo da produção do leite até o consumo final.

Fonte: p.130
https://storage.googleapis.com/edocente-content-production/PNLD/PNLD_2023_OBJETIVO_1/ATICA/APISMAIS/GEOGRAFIA/ApisMais_Geografia_4ano_PNLD2023_Obj1_MP_CARAC.pdf
Na análise dessas imagens é possível percebermos a objetificação dos animais não-humanos, observando-se, inicialmente, a própria terminologia utilizada e que se encontra estampada na figura 4, no excerto textual que a acompanha, onde são referidos como recursos naturais ou recursos do campo. Nesse ponto, comporta recobrarmos nossa já manifesta inconformidade com a terminologia vigente, animais de produção, ao que se agrega, agora, com indisposição direcionada à palavra recurso, utilizada no material didático do ensino fundamental.
Considerando que a linguagem possui o poder para criar e/ou ratificar a condição de invisibilidade e objetificação e/ou objetivação de um ser dotado de vida e senciência, onde “os animais são objetivados de maneiras muito variadas talvez mais especialmente por meio da linguagem” (Joy, p.113, 2014), pode-se afirmar que essa objetivação é um poderoso mecanismo provocador do distanciamento.
Já no que pertine à figura 5, esta, efetivamente, apresenta cenas de extremo distanciamento com a realidade da produção intensiva, considerando-se que a criação de gado de leite [10] na pecuária industrial se sobrepõe exponencialmente à produção familiar, que, assim, constitui exceção dentre os recursos do campo (apontados na figura 4).
Como se não bastasse, a fotografia fragmentada de uma vaca sendo ordenhada por um ser humano, mais especificamente, apenas um úbere destacado, não somente destoa do ocorrido na produção intensiva pelos motivos supramencionados, mas pela incoerência visual em relação à forma como o leite é obtido, sugado, já que não será por mãos humanas, mas, sim, por uma ordenha mecânica, onde os úberes são literalmente sugados por máquinas, causando, não raras vezes ferimentos (mastites).
Ao se analisar a imagem, ademais, a mesma reforça a fragmentação dos animais (no caso um úbere), que já não se mostram mais como seres inteiros, são fragmentos, máquinas produtoras, tornando os animais “não-seres não somente pela tecnologia como também por expressões inócuas como unidade de produção de alimentos, coletor de proteínas, máquina de conversão e biomáquinas” (ADAMS, p. 87, 2018).
Também o texto lançado abaixo da fotografia da vaca ordenhada (reiterando, do úbere), resta disposto como “pessoa ordenhando o gado”. Em que pese o termo gado ser o utilizado tecnicamente na pecuária, ainda que para extração de leite, no livro didático para alunos do ensino fundamental não nos parece pertinente. Explicitando. Por primeiro, quem produz leite é uma vaca, uma fêmea, já a ideia de gado, reproduz uma categoria, um grupo de animais não-humanos, como se todos fossem iguais, sem características individuais, potencializando a abstração daquele ser. E, esse é mais um contributo para invisibilidade dos animais como sujeitos únicos no sistema alimentar, o que coaduna com a ideia de desindividualização de Joy (p. 116-117, 2014), já que por intermédio desta concepção, são vistos apenas em termos de identidade de grupo, sem a avaliação da individualidade.
Ratificando esse posicionamento segregador e, ampliando a semântica do uso da palavra gado, parece-nos interessante traçar um paralelo com o atual contexto político brasileiro, onde a expressão sobrevém com intuito de insulto a determinado grupo de pessoas e de forma depreciativa, o que reflete negativamente no relacionamento interespécies. Assim, o emprego da palavra gado
entre tantas expressões pejorativas que designam outros animais impactar o nosso relacionamento Inter espécies aí se uso e abuso da representação dos animais através da linguagem com intenções descritivas de inferioriza ção e subjugação chamamos de linguagem especialista ponto dessa forma compreendemos que a utilização das espécies animais que visam atribuir alguma falta cognitiva inabilidade ou disfunção se ampara e ao mesmo tempo promove o especismo (Rosendo, et al., 2024).
Nessa sucinta apreciação das figuras analisadas em contraponto com os substratos trazidos, patente o destoar com o atual modelo de produção animal, pautado pelo capitalismo inserto na objeção de Singer (2010), restando perceptível um sistema que
desconsidera os parâmetros éticos relativos ao bem-estar animal, mormente desconsiderando sua condição de seres sencientes ao priorizar, de forma clara e absoluta, os interesses econômicos em detrimento da vida e da dignidade dos animais não-humanos (Martins; Nunes, 2020, p. 198)
Ao tratarmos, como vimos, da objetificação, fragmentação, depreciação e abstração dos animais não-humanos, que se materializam pelas linguagens adotadas além de práticas que desrespeitam as concepções do bem-estar, destacamos, também, a inobservância a um dos princípios mais estruturais que norteiam o Direito Animal qual seja o da dignidade animal.
Assim, o que se propõe a refletir e reavaliar, é a forma como os animais que integram os sistemas alimentares estão sendo apresentados nos contextos pedagógicos, a começar pela linguagem e imagens lançadas nos materiais didáticos, bem como sobre o pensar para além dessas imagens e vernáculos, conhecendo e avaliando-se o que perpassa na origem, por exemplo, daquele pedaço de carne que surge, isolado, estampado na figura 4.
Veja-se que estamos falando de materiais integrantes do ciclo de aprendizado e evolutivo de crianças e adolescentes em ambientes formais de educação, logo, estamos no campo das políticas públicas, dos direitos sociais, o que requer atenção primordial para um estímulo, uma condução para um pensar certo, como preleciona Freire (1996), o que demanda profundidade e não superficialidade na compreensão e na interpretação dos fatos, supondo a disponibilidade à revisão dos achados, reconhecendo não apenas a possibilidade de mudar de opção, de apreciação, mas o direito de fazê-la.
Ao tratarmos dos animais inseridos nos sistemas alimentares, nessa macro área da educação, talvez não se consiga ensinar ninguém a sentir, mas ela pode ensinar a pensar, como também ratifica Brügger (2012) viabilizando a mudança do paradigma antropocêntrico e especista que se encontra na maioria dos pratos “à mesa”.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após esse périplo que percorremos durante o desenvolver deste ensaio foi possível constatar que a trajetória ainda se mostra árida no campo da interlocução de saberes relacionados ao reconhecimento dos animais inseridos nos sistemas de produção, após isso a apreciação dos materiais didáticos.
Já no que pertine a estruturas, como o BNCC, não se tem dúvidas de que nos Temas Contemporâneos Transversais, os animais poderão ser inseridos nas discussões atreladas ao ativismo em favor do bem-estar dos animais.
Entretanto, uma dissociação transparece, pois na análise semiótica dos livros didáticos, tanto pelas ilustrações, como pela linguagem, a contextualização dos animais não-humanos reforça padrões e categorias da hegemonia antropocêntrica e especista, o que prejudica sobremaneira a busca pela quebra desses paradigmas, exigindo um renovar de políticas públicas educacionais para pauta animalista.
Assim, concluímos este trabalho no intuito de continuidade da pesquisa, haja vista a necessidade de se efetivar as políticas públicas educacionais com vistas ao efetivo reconhecimento dos animais como sujeitos de direitos sencientes, protegidos das mazelas dos maus tratos e das falácias que permeiam o bem-estar no sistema intensivo.
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