Do mar ao mercado: o custo invisível do pescado

Victoria da Cruz Dias

Publicado em:
2/1/2026

Resumo

O ensaio desmonta o mito de que peixes são fontes indispensáveis de ômega-3, mostrando que o nutriente vem das algas e que espécies consumidas no Brasil contêm níveis baixos dele, mas altos índices de metais pesados, microplásticos e toxinas. Analisa ainda a crueldade da aquicultura superlotada, a destruição ambiental da pesca de arrasto, o “finning” de tubarões e a captura acidental de golfinhos e tartarugas. Argumenta que alternativas vegetais e suplementos de algas oferecem os mesmos benefícios sem sofrimento animal, poluição nem colapso dos ecossistemas marinhos, defendendo uma transição alimentar ética e sustentável.

Palavras-chave:
Contaminação; Ética; Oceanos; Senciência; Sustentabilidade

Até que ponto você realmente reflete sobre o que coloca no seu prato? Você pensa no impacto que a sua comida tem não só no seu corpo, mas também no meio ambiente, na sustentabilidade e nas consequências que suas escolhas alimentares podem gerar para outras pessoas, inclusive aquelas que ainda nem nasceram, mas que vão depender das atitudes que tomamos hoje para terem a chance de viver dignamente em um mundo saudável no futuro? Eu não acredito que o prazer de comer precise ser sacrificado em nome da saúde, da ética ou da sustentabilidade, como se só restasse comer por mera necessidade de sobrevivência. Acredito, sim, que é possível unir prazer e cuidado: montar um prato cheio de sabores que evocam memórias afetivas, mas que não tragam consigo sofrimento, morte, microplásticos, substâncias cancerígenas, toxinas ou metais pesados. Hoje, temos alternativas igualmente saborosas, sem esse peso invisível.

Recentemente, meu pai postou uma foto de um peixe assado que estava comendo. Como vegana bem-humorada e com intimidade com ele, respondi no privado brincando: “Comendo metais pesados?” e ele devolveu com um “Ômega 3”. Foi aí que me peguei pensando em algo que nunca tinha parado para analisar: atualmente, considerando que peixe não produz ômega 3, qual a porcentagem do pescado consumido no Brasil – especialmente das espécies mais populares – que carrega metais pesados, toxinas, substâncias cancerígenas e microplásticos em comparação ao teor de ômega 3 ou outros nutrientes? Quando expliquei para o meu pai que peixe não produz ômega 3, ele apenas deu risada. Depois, ao comentar sobre isso com outra pessoa, ouvi de volta: “Como assim peixe não produz ômega 3?” E mais uma vez, fiquei surpresa com o quanto ainda falta de educação alimentar e transparência sobre o que realmente estamos consumindo e os impactos dessas escolhas.

Muita gente acredita que todo peixe é automaticamente fonte de ômega 3, mas essa ideia não corresponde à realidade. Na verdade, os peixes não produzem ômega 3 por conta própria. Assim como os seres humanos, eles dependem da alimentação para obter esse nutriente essencial. O ômega 3 presente nos peixes é acumulado a partir do que eles comem, especialmente de algas e fitoplâncton, que são organismos microscópicos marinhos capazes de produzir esse ácido graxo. Quando pequenos peixes e crustáceos consomem essas algas, eles acumulam ômega 3 em seus corpos, e, ao serem consumidos por peixes maiores, esse nutriente vai se concentrando ao longo da cadeia alimentar.

Por isso, nem todo peixe é rico em ômega 3. Os peixes de águas frias e profundas, como salmão, sardinha, cavala e atum, costumam ter maiores concentrações desse nutriente, justamente porque sua alimentação é mais rica em fitoplâncton e algas, as verdadeiras produtoras de ômega 3. Já muitos peixes de água doce ou de regiões tropicais, como os encontrados no litoral brasileiro, apresentam baixos níveis de ômega 3, pois sua dieta não é composta por esses organismos produtores.

Embora o consumo de peixe seja frequentemente associado à ingestão de ômega 3, é importante lembrar que esse nutriente pode ser obtido de outras fontes, como algas e suplementos. Além disso, a quantidade de ômega 3 presente em muitos peixes consumidos no dia a dia costuma ser relativamente baixa, o que pode tornar difícil atingir as recomendações apenas com o consumo desses alimentos. Por exemplo, para atingir a recomendação diária de 2g de ômega 3, seria necessário comer mais de 20 kg de badejo por dia, o que é impossível na prática (SCHERR et al., 2015). Mesmo espécies consideradas melhores fontes, como pescadinha e salmão, exigiriam o consumo de grandes porções para alcançar o valor recomendado (SCHERR et al., 2015).

Além disso, o risco de contaminação por metais pesados, microplásticos, toxinas, drogas e outras substâncias nocivas presentes no pescado brasileiro ultrapassa os potenciais benefícios do ômega 3 (VEJA SAÚDE, 2025; AGRON FOOD ACADEMY, 2023). Diante disso, buscar fontes alternativas, como suplementos de algas ou sementes vegetais, é não só mais seguro, mas também mais eficiente e sustentável para garantir o aporte desse nutriente essencial, sem os riscos associados ao consumo de peixe (BBC, 2021).

Quando falamos de peixes criados em cativeiros, a quantidade de ômega 3 depende diretamente da composição da ração fornecida. Se a ração for rica em óleos e farinhas de peixe, o peixe de cativeiro poderá ter níveis similares aos do peixe selvagem. Caso contrário, os teores podem ser bem menores. Embora a composição da ração possa determinar a quantidade de ômega-3 nos peixes de cativeiro, isso não compensa os inúmeros problemas associados a esse tipo de criação. Os peixes em cativeiro geralmente vivem em tanques superlotados, com espaço tão limitado que mal conseguem nadar ou expressar seus comportamentos naturais. Essa situação é comparável a viver em uma cela de prisão superlotada, onde o peixe passa toda a sua vida confinado, sem qualquer perspectiva de liberdade, apenas aguardando o momento de sua morte.

Além do sofrimento físico e psicológico causado pela falta de espaço e estímulos, a superlotação favorece a proliferação de doenças e parasitas, como o piolho-do-mar, que causa feridas e pode levar à morte de muitos peixes. O ambiente fechado e com pouca renovação de água faz com que resíduos e toxinas se acumulem, tornando a água cada vez mais prejudicial à saúde dos animais. Como resultado, é comum que esses peixes apresentem altos níveis de estresse, doenças bacterianas e virais, além de parasitas internos que afetam seu crescimento e bem-estar.

Outro ponto preocupante é a procedência da ração utilizada. Muitas vezes, ela contém farinhas de peixe provenientes de estoques contaminados por metais pesados ou microplásticos, o que pode transferir essas substâncias tóxicas para os peixes de cativeiro e, consequentemente, para quem os consome. Além disso, rações mal formuladas podem causar deficiências nutricionais, problemas de saúde e deformidades nos peixes.

Portanto, mesmo que a ração possa aumentar o teor de ômega-3 em peixes de cativeiro, os riscos sanitários e o sofrimento animal tornam esse sistema de produção altamente questionável. O ambiente hostil, a alta incidência de doenças e a qualidade duvidosa da alimentação fazem com que os possíveis benefícios nutricionais não justifiquem os impactos negativos para os peixes e para o consumidor.

A pesca de arrasto é uma das práticas mais destrutivas para o oceano, com impactos que vão muito além da simples captura de peixes. As enormes redes, que podem ter quilômetros de comprimento, são arrastadas pelo fundo do mar, destruindo tudo em seu caminho como um trator submarino. Corais milenares, algas fundamentais para a fotossíntese e habitats inteiros são reduzidos a escombros, deixando um rastro de devastação que leva décadas ou séculos para se recuperar.

Além da destruição física, as redes descartadas ou perdidas continuam a matar mesmo depois de abandonadas. Conhecidas como "redes fantasmas", esses equipamentos flutuam ou se prendem em recifes, aprisionando indiscriminadamente tartarugas, golfinhos, focas e aves marinhas. Esses animais sofrem uma morte lenta por afogamento, fome ou ferimentos, criando um ciclo perverso de armadilhas invisíveis que podem permanecer no mar por até 600 anos.

A captura acidental (bycatch) é outro drama invisível: para cada tonelada de peixe comercial, até 4 toneladas de vida marinha são mortas e descartadas. Tubarões, arraias, tartarugas e golfinhos – espécies que despertam empatia e são vitais para o equilíbrio ecológico – são as maiores vítimas (O ECO, 2021). No Brasil, estudos mostram que até 80% da captura em arrastos pode ser composta por espécies não-alvo, incluindo filhotes de peixes comerciais e animais ameaçados de extinção (PESCA ACIDENTAL DE ESPÉCIES NÃO-ALVO NO BRASIL, 2024).

Selos como "Golfinho Seguro" que aparece em muitas latas de atum no mundo todo é vendido como uma garantia de que nenhum golfinho foi morto ou ferido durante a pesca daquele peixe. No entanto, essa promessa está longe de ser uma realidade confiável. Na prática, qualquer empresa pode pagar para obter esse selo, e a fiscalização é extremamente limitada, tornando impossível garantir que nenhum animal tenha sido prejudicado. Mesmo quando há observadores a bordo, eles não conseguem monitorar todas as etapas do processo, e há muitos relatos de fraudes e irregularidades. Além disso, o simples fato de um golfinho ser capturado e depois devolvido ao mar não significa que ele saiu ileso; muitos ficam gravemente feridos, estressados ou acabam morrendo pouco tempo depois devido aos danos sofridos durante o aprisionamento nas redes. O selo, portanto, serve muito mais como uma ferramenta de marketing para tranquilizar consumidores preocupados do que como uma garantia real de proteção aos animais marinhos.

A prática de remoção das barbatanas de tubarões, conhecida como finning, é uma das formas mais cruéis de exploração animal. Tubarões são capturados, têm suas barbatanas cortadas enquanto ainda estão vivos e são jogados de volta ao mar, onde enfrentam uma morte lenta por afogamento, hemorragia ou predação. Incapazes de nadar, eles afundam e sofrem por horas ou dias, conscientes de sua agonia. Essa tortura é impulsionada pela demanda por sopa de barbatana, um prato de luxo sem valor nutricional essencial.

Paralelamente, nas Ilhas Faroés, ocorre o grindadráp: baleias-piloto e golfinhos são cercados por barcos, forçados a encalhar em baías rasas e sistematicamente degolados com facas e ganchos. O mar se transforma em um cenário de horror, tingido de vermelho pelo sangue de centenas de animais. Os cetáceos, altamente sociais e sencientes, testemunham a morte uns dos outros enquanto agonizam conscientemente. 

A defesa desses atos sob o argumento da "cultura" é eticamente insustentável. A escravidão, por exemplo, já foi legitimada por tradições econômicas e sociais em todo o mundo, mas foi abolida quando a humanidade reconheceu sua barbárie intrínseca. Da mesma forma, rituais como o grindadráp e o finning perpetuam uma violência que contradiz nosso entendimento contemporâneo de ética e compaixão. Tubarões e cetáceos são vitais para os oceanos – regulando ecossistemas e mantendo o equilíbrio marinho –, e sua destruição em massa acelera o colapso ambiental.

A evolução moral exige que abandonemos práticas que normalizam a crueldade, independentemente de sua origem cultural. Assim como a escravidão humana tornou-se inaceitável, a tortura de espécies marinhas sencientes deve ser relegada ao passado. A sobrevivência dos oceanos, e portanto da nossa própria espécie, depende dessa transição ética.

Atualmente, os estudos científicos mostram que a contaminação do pescado brasileiro por metais pesados, microplásticos e toxinas é preocupante, especialmente quando consideramos que a maioria das espécies mais consumidas no Brasil possui baixos teores de ômega-3. Embora o peixe seja tradicionalmente visto como uma fonte saudável de nutrientes, a realidade brasileira é mais complexa.

Pesquisas realizadas em diferentes regiões do país, especialmente na Amazônia e em áreas impactadas por atividades industriais, revelam que uma parcela significativa dos peixes apresenta níveis elevados de metais pesados como mercúrio, cromo, arsênio, zinco e chumbo. Por exemplo, em alguns estados da Amazônia, cerca de 21% dos peixes analisados tinham concentrações de mercúrio acima do limite considerado seguro para consumo humano, chegando a 40% em determinadas localidades, como Roraima (FIOCRUZ, 2023). Em regiões como o Rio das Antas, no Rio Grande do Sul, todas as amostras de peixe analisadas apresentaram cromo acima do permitido (CONCENTRAÇÃO DE METAIS..., 2019), enquanto no Rio Doce, após o desastre de Mariana, o arsênio foi o principal contaminante encontrado, com efeitos tóxicos comprovados (FIOCRUZ, 2020).

Além dos metais pesados, a presença de microplásticos é alarmante. Em estudos recentes, quase todos os peixes analisados em rios amazônicos apresentaram microplásticos em seus organismos, com algumas espécies mostrando índices superiores a 80% (MIDIA NEWS, 2024). Esse tipo de poluição, além de ser um indicador do impacto ambiental, traz riscos adicionais à saúde humana, pois os microplásticos podem carregar toxinas e metais pesados.

Pesquisas em diferentes regiões revelam que os peixes apresentam não apenas metais pesados (como mercúrio, cromo e arsênio), mas também contaminantes emergentes. No litoral de São Paulo, por exemplo, detectou-se cocaína, paracetamol e cafeína em espécies como bagres, sardinhas e ovevas (G1, 2024). Essas substâncias chegam ao oceano pelo esgoto doméstico não tratado, contaminando a cadeia alimentar. Tubarões no Rio de Janeiro e peixes na Baía de Santos também apresentaram cocaína em seus organismos (CIESP, 2024), evidenciando a escala do problema.

Além disso, os microplásticos são frequentemente detectados em peixes da região amazônica, enquanto partículas ainda menores, como os nanoplásticos, levantam preocupações quanto a potenciais efeitos na saúde cardiovascular humana. Essas partículas têm a capacidade de se acumular em tecidos orgânicos, onde podem desencadear processos inflamatórios.

O consumo desses contaminantes presentes no pescado está ligado a uma série de doenças graves. Microplásticos, por exemplo, podem induzir mutações celulares e estão associados ao desenvolvimento de tumores hepáticos e pulmonares, aumentando o risco de câncer (BJHR, 2025). Partículas plásticas na corrente sanguínea elevam em até 4,5 vezes a probabilidade de infartos e acidentes vasculares cerebrais, agravando problemas cardiovasculares (CNN BRASIL, 2024). Além disso, metais pesados como o mercúrio e resíduos de agrotóxicos acumulados nos peixes têm relação direta com doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer (WHEELER, 2013). Contaminantes que atuam como disruptores endócrinos também podem afetar o sistema reprodutivo, levando à infertilidade e malformações (FRANKLIN et al., 2024). Por fim, resíduos de medicamentos como ansiolíticos encontrados na água alteram o comportamento dos peixes e, quando consumidos por humanos, estão associados ao aumento de casos de depressão e ansiedade, evidenciando os riscos psiquiátricos desse tipo de exposição.

Apesar de espécies como sardinha e cavala oferecerem ômega-3, os riscos da contaminação superam quaisquer benefícios. Alternativas vegetais (como linhaça e chia) e suplementos de algas fornecem esse nutriente sem expor o consumidor a coquetéis tóxicos. A degradação ambiental reflete uma crise sanitária: proteger o oceano é garantir a própria sobrevivência humana.

No que diz respeito ao valor nutricional, a maioria dos peixes consumidos no Brasil possui baixos teores de ômega-3, com exceção de espécies específicas como a cavala e a sardinha, que apresentam concentrações mais elevadas desse nutriente. No entanto, mesmo nessas espécies, a contaminação pode ser um fator limitante para o consumo regular. Outros nutrientes, como proteínas, vitaminas e minerais, estão presentes em boas quantidades, mas não são exclusivos do pescado e podem ser encontrados em outras fontes alimentares menos problemáticas do ponto de vista da contaminação.

Ao contrário do que muita gente pensa, o verdadeiro pulmão do mundo não é a Amazônia, como muitos acreditam, e sim o oceano. A maior parte do oxigênio que respiramos é produzida por organismos microscópicos que vivem nas águas marinhas, como o fitoplâncton, as cianobactérias e as algas. Esses seres realizam a fotossíntese, transformando luz solar e gás carbônico em oxigênio, e são responsáveis por gerar entre 50% e 80% de todo o oxigênio do planeta (HIDROMARES, 2025), enquanto as florestas, incluindo a Amazônia, consomem grande parte do oxigênio que produzem em seus próprios processos de respiração e decomposição (REPAM, 2019).

Além de fornecer oxigênio, o oceano cumpre funções essenciais para o equilíbrio ambiental. Ele regula a temperatura da Terra, absorve cerca de um terço do dióxido de carbono lançado na atmosfera e distribui o calor pelo planeta, evitando extremos climáticos (NEO MONDO, 2025). Sem esse papel, a vida na Terra seria inviável, pois as temperaturas poderiam ultrapassar 100ºC e o clima se tornaria caótico (FUNDAÇÃO GRUPO BOTICÁRIO, 2024).

No entanto, o oceano enfrenta um processo de degradação acelerado devido à ação humana. A poluição, a pesca excessiva, o despejo de resíduos e o aquecimento global ameaçam a saúde dos mares e, consequentemente, a estabilidade do clima e a produção de oxigênio. O aumento do CO₂ dissolvido nas águas provoca a acidificação dos oceanos, prejudicando recifes de corais e diversas espécies marinhas, enquanto o excesso de calor absorvido está alterando correntes e padrões climáticos em todo o mundo.

Desmatar o oceano, ou seja, destruir seus ecossistemas, é tão grave quanto desmatar florestas. A perda de biodiversidade marinha, a morte de corais e a diminuição do fitoplâncton reduzem a capacidade do oceano de produzir oxigênio e de regular o clima, colocando em risco não só a vida marinha, mas toda a vida no planeta. Por isso, proteger o oceano é fundamental para garantir o ar que respiramos, a estabilidade do clima e a sobrevivência das próximas gerações.

A pesca industrial enfrenta uma crise de insustentabilidade, tanto ética quanto econômica, que exige transição para novos modelos. Do ponto de vista ético, métodos como o arrasto destroem habitats marinhos milenares, aprisionam espécies não-alvo como tartarugas e golfinhos, e submetem peixes a condições análogas a "celas subaquáticas" em cativeiros superlotados (VIDAS DIZIMADAS..., 2023). Economicamente, a sobrepesca já levou ao colapso de 30% dos estoques pesqueiros brasileiros (GLOBO RURAL, 2024), gerando perdas anuais de R$ 10 bilhões e ameaçando a segurança alimentar de comunidades costeiras (AGÊNCIA BRASIL, 2019).

Essa decadência, no entanto, segue um padrão histórico de transformação laboral. Profissões como vendedores de enciclopédias (extintos pela internet), leiteiros (substituídos por cadeias de frio) e linotipistas (obsoletos pela impressão digital) desapareceram, mas deram origem a novas ocupações. Na pesca, esse movimento já ocorre: em países como Canadá e Noruega, pescadores foram realocados como fiscais ambientais, monitorando áreas protegidas e combatendo pesca ilegal – atividade que redireciona seu conhecimento prático para preservação marinha.

Paralelamente, surgem oportunidades em turismo sustentável, como nas reservas extrativistas brasileiras, onde ex-pescadores guiam visitantes e protegem ecossistemas, gerando renda sem esgotar recursos. Outros migram para aquicultura responsável ou rastreabilidade de pescado, áreas que exigem habilidades em gestão ambiental e tecnologia.

Assim como o desaparecimento dos datilógrafos deu lugar a designers de UX e analistas de dados, o declínio da pesca tradicional não significa desemprego, mas reconversão orientada por políticas públicas. Programas de requalificação – como os vinculados ao seguro-defeso no Brasil – podem formar técnicos em restauração de manguezais, operadores de drones de vigilância oceânica ou educadores ambientais. Essa transição, embora desafiadora, transforma o conhecimento empírico dos pescadores em ferramentas para regenerar os oceanos que antes exploravam.

Do ponto de vista ético, o sistema alimentar atual enfrenta uma contradição profunda: matamos trilhões de animais marinhos anualmente, mesmo sabendo que nosso corpo não precisa de proteínas, ômega-3 ou qualquer nutriente exclusivo deles. Estudos comprovam que dietas vegetais completas suprem todas as necessidades humanas, enquanto alternativas como sardinha vegana, "camarão" de konjac, "atum" de tomate e diversos industrializados a base de plantas já oferecem sabores e texturas idênticos aos originais, resgatando memórias afetivas sem violência. A indústria pesqueira, no entanto, insiste em justificar a carnificina marinha com argumentos econômicos frágeis, ignorando que cada rede de arrasto dizima ecossistemas inteiros e condena não apenas espécies sencientes – como tartarugas e golfinhos – a mortes agonizantes, mas também o futuro de toda a vida humana, como "danos colaterais".

Se mantivermos o atual ritmo de degradação ambiental, corremos o risco de comprometer seriamente a vida nos oceanos, tornando-os incapazes de sustentar a diversidade de espécies que conhecemos, em 30 anos veremos oceanos biologicamente mortos, incapazes de sustentar a teia da vida que nos mantém vivos (CARINGTON, 2018). É uma ironia trágica: ao explorar recursos marinhos de forma excessiva, colocamos em risco o próprio ecossistema que é fundamental para a nossa existência.

O ecossistema marinho é composto por uma complexa rede de relações entre predadores e presas, onde cada espécie exerce um papel fundamental para manter o equilíbrio dos oceanos. Animais como tubarões, golfinhos, grandes peixes e até mesmo lulas atuam como predadores de topo, regulando as populações de suas presas e impedindo a superpopulação de determinadas espécies. Quando esses predadores são removidos, seja pela pesca predatória ou pela destruição de seus habitats, ocorre um desequilíbrio conhecido como cascata trófica. Sem predadores para controlar, por exemplo, cardumes de peixes menores ou ouriços-do-mar, essas populações podem crescer descontroladamente, consumindo algas, corais e outros organismos essenciais, o que pode levar à degradação de recifes e à diminuição da biodiversidade.

Além de afetar diretamente as cadeias alimentares, a retirada de predadores altera processos ecológicos vitais, como a ciclagem de nutrientes e até mesmo o sequestro de carbono, impactando o clima global. A pesca industrial, ao capturar indiscriminadamente tanto predadores quanto presas, provoca um colapso nas populações de diversas espécies e pode gerar superpopulação de algumas enquanto outras desaparecem, tornando o oceano um ambiente cada vez mais pobre e instável.

Esta degradação é agravada por uma crise de poluição plástica sem precedentes. Pesquisas da Sea Shepherd Brasil revelaram que 100% das praias brasileiras contêm microplásticos, com 97% apresentando partículas menores que 5mm, resultado direto do descarte inadequado de resíduos e do consumismo desenfreado (SEA SHEPHERD BRASIL, 2024). No entanto, a maior responsável pela devastação oceânica é a própria indústria pesqueira. Estudos internacionais demonstram que equipamentos de pesca abandonados representam 46% do plástico na Grande Mancha de Lixo do Pacífico (AGEMT, 2021) e até 85% do lixo em ecossistemas de profundidade (SINERGIA ANIMAL, 2019). Anualmente, mais de 640 mil toneladas de redes, linhas e armadilhas são descartadas nos oceanos (AGÊNCIA BRASIL, 2018), formando "redes fantasmas" que estrangulam tartarugas, asfixiam golfinhos e mutilam baleias por décadas.

Esses resíduos da pesca industrial não são apenas lixo: são armadilhas letais que matam 25 milhões de animais marinhos só no Brasil anualmente e representam a forma mais perversa de poluição plástica (NATIONAL GEOGRAPHIC, 2018). Enquanto o consumo humano contamina praias, a pesca destrói o equilíbrio vital dos oceanos de dentro para fora, transformando habitats milenares em cemitérios subaquáticos.

A senciência dos peixes é cientificamente comprovada por pesquisas que revelam estruturas neurológicas e comportamentos complexos. Estudos demonstram que peixes possuem nociceptores (receptores de dor) e sistemas de processamento de estímulos nocivos equivalentes aos de mamíferos. Quando feridos, exibem reações como esfregar o corpo em superfícies, alterar a natação e evitar locais associados a sofrimento. A administração de analgésicos reduz esses comportamentos, confirmando a percepção consciente da dor. Além disso, peixes demonstram memória de longo prazo, reconhecimento facial e cooperação social, como observado em espécies como o peixe-arqueiro, que distingue rostos humanos.

A escala de mortandade animal revela um desequilíbrio chocante: enquanto cerca de 78 bilhões de animais terrestres são abatidos anualmente para consumo, o número de vidas marinhas ultrapassa trilhões. A pesca industrial mata aproximadamente 2 trilhões de peixes selvagens por ano, além de 124 bilhões de peixes de cativeiro (ANDA, [s.d.]). Essa diferença quantitativa é mascarada pela métrica utilizada: animais terrestres são contados por "cabeças", mas os marinhos são medidos em toneladas, obscurecendo a dimensão individual do sofrimento. Para cada tonelada de pescado, até 4 toneladas de fauna acompanhante (golfinhos, tartarugas, aves) são descartadas mortas (VEGPEDIA, 2024).

A falta de empatia com peixes frequentemente surge da percepção de que não são "fofos" como mamíferos, além da ausência de expressões faciais reconhecíveis. Contudo, sua luta pela sobrevivência é uma prova gritante de senciência: ao serem fisgados, debatem-se violentamente, tentando escapar mesmo com órgãos perfurados. Esse comportamento não é um mero reflexo, mas uma resposta consciente ao perigo, apoiada pela liberação de adrenalina e cortisol.

A ética exige que reconheçamos essa evidência: se a agonia de um cão preso em uma armadilha nos comove, a mesma compaixão deve estender-se ao peixe asfixiado em um convés ou mutilado por redes. Sua senciência não é inferior por habitar um mundo distante do nosso; é uma realidade biológica que demanda um sistema alimentar sem crueldade.

Precisamos reconhecer que cada escolha à mesa, no mercado ou no descarte de resíduos é um voto diário pelo tipo de planeta que deixaremos às próximas gerações. Não há mais espaço para a indiferença: transformar hábitos alimentares e padrões de consumo é um ato de responsabilidade coletiva que protege não só a nossa saúde, mas a continuidade da vida marinha que sustenta o clima, o oxigênio e a biodiversidade da Terra. Essa mudança individual, contudo, ganha força real quando se torna pressão social organizada — exigindo de governos políticas que protejam os oceanos, regulem cadeias produtivas e incentivem alternativas sustentáveis.

Ao mesmo tempo, engajar-se em mobilizações públicas, apoiar iniciativas ambientais e dar voz às comunidades que dependem dos mares amplia o impacto dessas ações privadas. Defender a integridade dos ecossistemas oceânicos é defender a própria possibilidade de futuro: cabe a nós fazer dessa urgência um compromisso cotidiano e uma pauta política inadiável.

Referências

AGEMT. Aumento na produção de lixo e excesso de pesca geram impactos nos oceanos. São Paulo, 26 maio 2021. Disponível em: http://agemt.pucsp.br/noticias/aumento-na-producao-de-lixo-e-excesso-de-pesca-geram-impactos-nos-oceanos. Acesso em: 26 jun. 2025.

AGÊNCIA BRASIL. Agência da ONU alerta para perigo de “pesca fantasma”. Brasília, DF, 27 abr. 2018. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-04/agencia-da-onu-alerta-para-perigo-de-pesca-fantasma. Acesso em: 26 jun. 2025.

AGÊNCIA BRASIL. WWF: sobrepesca e falta de gestão são desafios para setor pesqueiro. Brasília, DF, 2 abr. 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-04/wwf-sobrepesca-e-falta-de-gestao-sao-desafios-para-setor-pesqueiro. Acesso em: 26 jun. 2025.

AGRON FOOD ACADEMY. Riscos de contaminantes ambientais em pescado na Baixada Santista-SP: segurança alimentar e aspectos da legislação. 31 ago. 2023. Disponível em: https://agronfoodacademy.com/riscos-de-contaminantes-ambientais-em-pescado-na-baixada-santista-sp-seguranca-alimentar-e-aspectos-da-legislacao/. Acesso em: 26 jun. 2025.

ANDA. O número de animais mortos para o consumo aumenta a cada ano no mundo. [s.d.]. Disponível em: https://anda.jor.br/o-numero-de-animais-mortos-para-o-consumo-aumenta-a-cada-ano-no-mundo. Acesso em: 26 jun. 2025.

BBC. Os riscos e benefícios à saúde do consumo de peixe. BBC Brasil, 24 jan. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-55399829. Acesso em: 26 jun. 2025.

BJHR. Potenciais riscos à saúde associados à exposição de seres humanos a microplásticos e nanoplásticos. Brazilian Journal of Health Review, 2025. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/80472. Acesso em: 26 jun. 2025.

CARINGTON, Damian. A era dos oceanos mortos. Outras Palavras, 22 fev. 2018. Disponível em: https://outraspalavras.net/sem-categoria/a-era-dos-oceanos-mortos/. Acesso em: 26 jun. 2025.

CIESP. Cocaína contamina baía de Santos de maneira preocupante, diz estudo. 2024. Disponível em: https://regional.ciesp.com.br/taubate/noticias/cocaina-contamina-baia-de-santos-de-maneira-preocupante-diz-estudo/. Acesso em: 26 jun. 2025.

CNN BRASIL. Microplásticos encontrados nas artérias aumentam risco de infarto e AVC. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/microplasticos-encontrados-nas-arterias-aumentam-risco-de-infarto-e-avc/. Acesso em: 26 jun. 2025.

CONCENTRAÇÃO DE METAIS EM PEIXES DE DIFERENTES NÍVEIS TRÓFICOS, ocorrentes no Rio das Antas, RS - Brasil. Revista Gestão & Sustentabilidade Ambiental, v. 8, n. 4, p. 152-164, 2019. DOI: 10.19177/rgsa.v8e42019152-164. Disponível em: https://portaldeperiodicos.animaeducacao.com.br/index.php/gestao_ambiental/article/view/7748. Acesso em: 26 jun. 2025.

FRANKLIN, L. B. et al. A implicação de disruptores endócrinos na fertilidade feminina. Acervo Mais, v. 47, 2024. DOI: 10.25248/REAC.e16913.2024. Disponível em: https://acervomais.com.br/index.php/cientifico/article/download/16913/9376/. Acesso em: 26 jun. 2025.

FUNDAÇÃO GRUPO BOTICÁRIO. Oceanos são o verdadeiro pulmão do mundo, diz pesquisador. 2024. Disponível em: https://fundacaogrupoboticario.org.br/oceanos-sao-o-verdadeiro-pulmao-do-mundo-diz-pesquisador/. Acesso em: 26 jun. 2025.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Estudo aponta contaminação por metais em peixes do Rio Doce. 2020. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/estudo-aponta-contaminacao-por-metais-em-peixes-do-rio-doce. Acesso em: 26 jun. 2025.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Ingestão diária de mercúrio excede os limites seguros em seis estados na Amazônia. 2023. Disponível em: https://fiocruz.br/noticia/2023/05/ingestao-diaria-de-mercurio-excede-os-limites-seguros-em-seis-estados-na-amazonia. Acesso em: 26 jun. 2025.

GLOBO RURAL. Quase 30% dos estoques pesqueiros estão em sobrepesca no Brasil. 22 ago. 2024. Disponível em: https://globorural.globo.com/pecuaria/peixe/noticia/2024/08/quase-30percent-dos-estoques-pesqueiros-estao-em-sobrepesca-no-brasil.ghtml. Acesso em: 26 jun. 2025.

HIDROMARES. Quanto de oxigênio é produzido nos oceanos? 2025. Disponível em: https://hidromares.com.br/blog/quanto-de-oxigenio-e-produzido-nos-oceanos/. Acesso em: 26 jun. 2025.

MIDIA NEWS. Pesquisa detecta microplásticos em 98% dos peixes da Amazônia. 2024. Disponível em: https://www.midianews.com.br/cotidiano/pesquisa-detecta-microplasticos-em-98-dos-peixes-da-amazonia/481004. Acesso em: 26 jun. 2025.

NATIONAL GEOGRAPHIC. 25 milhões de animais marinhos são impactados por pesca fantasma no Brasil. 2018. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2018/12/animais-marinhos-impactados-pesca-fantasma-brasil-peixe-plastico. Acesso em: 26 jun. 2025.

NEO MONDO. Por que preservar os oceanos é importante? 2025. Disponível em: https://neomondo.org.br/agronegocio/voce-conhece-a-importancia-dos-oceanos. Acesso em: 26 jun. 2025.

O ECO. Estamos comendo golfinhos, tartarugas e aves marinhas? 18 mar. 2021. Disponível em: https://oeco.org.br/analises/estamos-comendo-golfinhos-tartarugas-e-aves-marinhas/. Acesso em: 26 jun. 2025.

PESCA ACIDENTAL DE ESPÉCIES NÃO-ALVO NO BRASIL: uma revisão sistemática. Arquivos de Ciência do Mar, v. 57, n. 1, 2024. Disponível em: http://periodicos.ufc.br/arquivosdecienciadomar/article/view/83322. Acesso em: 26 jun. 2025.

REPAM. Amazônia não é o pulmão do mundo, mas é como um dos órgãos vitais. 2019. Disponível em: https://repam.org.br/amazonia-nao-e-o-pulmao-do-mundo-mas-e-como-um-dos-orgaos-vitais/. Acesso em: 26 jun. 2025.

SCHERR, C. et al. Concentração de ácidos graxos e colesterol de peixes brasileiros. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 104, n. 2, p. 152-158, 2015. DOI: 10.5935/abc.20140205.

SEA SHEPHERD BRASIL. Pesquisa inédita revela um raio-X dos resíduos na costa brasileira. 2024. Disponível em: https://seashepherd.org.br/raio-x-dos-residuos/. Acesso em: 26 jun. 2025.

SINERGIA ANIMAL. 85% do lixo em algumas partes dos oceanos são equipamentos de pesca. 12 nov. 2019. Disponível em: https://www.sinergiaanimalbrasil.org/post/2019/11/12/lixo-oceano-pesca-greenpeace. Acesso em: 26 jun. 2025.

VEGPEDIA. Quantos animais são mortos anualmente para o consumo humano? 14 nov. 2024. Disponível em: https://vegpedia.com/2024/11/14/quantos-animais-sao-mortos-anualmente-para-o-consumo-humano/. Acesso em: 26 jun. 2025.

VEJA SAÚDE. A mesa está para peixe? Em meio a crises ambientais, saiba como consumir. 25 mar. 2025. Disponível em: https://saude.abril.com.br/alimentacao/a-mesa-esta-para-peixe-em-meio-a-crises-ambientais-saiba-como-consumir/. Acesso em: 26 jun. 2025.

VIDAS DIZIMADAS pela pesca de arrasto: uma análise da perda da biodiversidade marinha e a incompatibilidade com a bioética ambiental. Humanidades & Tecnologia (FINOM), v. 43, p. 44-58, out./dez. 2023. Disponível em: https://revistas.icesp.br/index.php/FINOM_Humanidade_Tecnologia/article/viewFile/4740/2493. Acesso em: 26 jun. 2025.

WHEELER, Mark. Agrotóxicos e doença de Parkinson: pesquisadores da UCLA desvelam mais provas da conexão. Tradução de Luiz Jacques Saldanha. IHU Unisinos, 2013. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/noticias/518004-agrotoxicos-e-doenca-de-parkinson-pesquisadores-da-ucla-desvelam-mais-provas-da-conexao. Acesso em: 26 jun. 2025.