- Introdução
A ciência do bem-estar animal (BEA) emerge como uma necessidade ética e social diante da crescente compreensão de que os animais são seres sencientes, dotados da capacidade de sentir dor, medo, prazer e outros estados afetivos. Essa abordagem rompe com os paradigmas mecanicistas e reducionistas que, historicamente, relegaram a experiência subjetiva dos animais ao plano da irrelevância científica.
Nos sistemas alimentares, o BEA tem se consolidado como um campo legítimo de estudo e debate, impulsionado tanto pelas demandas sociais quanto pelo crescente interesse da comunidade acadêmica. Motivações éticas relacionadas à senciência e ao sofrimento animal, aliadas à necessidade de compreender as demandas físicas, comportamentais e psicológicas dos animais, fortalecem o avanço dessa área do conhecimento. Além disso, o BEA busca fornecer subsídios científicos para o aprimoramento de práticas de manejo que minimizem o estresse e promovam condições de vida adequadas, respeitando as diferentes realidades enfrentadas pelos animais ao longo de suas vidas (FAO, 2009; FAOLEX, 2009; HARRISON, 2013; BROWNING, 2022).
Contudo, estamos de fato, preparados para mensurar o bem-estar animal de forma objetiva, confiável e eficaz? Se os animais pudessem expressar suas experiências de bem-estar, ou de sofrimento, teríamos, enquanto ciência, as ferramentas necessárias para compreender e interpretar esses sinais com a devida precisão? Essas inquietações continuam a orientar o desenvolvimento científico e ético do BEA, desafiando pesquisadores e profissionais a aprimorar os métodos de avaliação e a ampliar a compreensão da complexa experiência dos animais.
A partir da segunda metade do século XX, com publicações como "Animal Machines" de Ruth Harrison (1964) e a formulação das Cinco Liberdades pelo Comitê Brambell (1965), consolidou-se um movimento social e científico em defesa do reconhecimento do BEA como campo de conhecimento legítimo e interdisciplinar. Esse processo, entretanto, está imerso em disputas conceituais e resistências, especialmente no contexto dos sistemas intensivos de produção animal.
No âmbito dessa reflexão, a obra de Ludwik Fleck, "Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico" (2010), oferece contribuições valiosas para compreender a construção social do conhecimento científico, especialmente ao propor os conceitos de "coletivo de pensamento" e "estilo de pensamento". Segundo Fleck, o saber científico não é fruto de uma lógica formal isolada, mas resulta de interações sociais, históricas e culturais que moldam tanto as perguntas quanto as respostas da ciência. Identificamos nessa obra as três dimensões fundamentais para refletir o BEA: a dimensão social da ciência; a biologia como "modelo" estruturante; e a linguagem como articuladora das ideias e das ações científicas. Assim, compreendemos que a história e a biologia dos animais nos sistemas alimentares formam a base para pensar epistemologicamente o BEA como campo científico.
Partindo dessa epistemologia, este ensaio analisa como a pesquisa em BEA, especialmente no campo da avaliação imunológica e hematológica, reflete esse caráter coletivo e histórico. Como referência empírica apresentamos os resultados da investigação realizada com aves e bovinos de corte em diferentes sistemas produtivos, onde a contagem e as alterações morfológicas celulares de leucócitos, bem como os índices da razão celular heterófilo/linfócito e neutrófilo/linfócito demonstraram potencial como indicadores objetivos, acessíveis e sensíveis ao bem-estar animal.
Nos próximos tópicos, será aprofundada essa discussão, evidenciando como a integração entre biologia, ciência social e compromisso ético é essencial para o avanço do BEA como ciência aplicada à transformação dos sistemas alimentares.
- Indicadores hematológicos como ferramentas para o bem-estar animal
A busca por métodos práticos e confiáveis de avaliação do BEA tem levado ao crescente interesse em biomarcadores objetivos, entre os quais os parâmetros hematológicos se destacam (Bøtner et al 2012; Harris et al 2024; Ribeiro et al 2024). Na pesquisa conduzida com aves de corte, evidenciou-se que altos índices da razão H/L, acompanhados de elevadas proporções de leucócitos heterófilos com alterações morfológicas tóxicas, correlacionam-se com indicadores de estresse e de saúde, como altas frequências de dermatite de peito, claudicação e estados afetivos negativos (Ribeiro et al 2024).
De forma semelhante, em bovinos de corte nos diferentes sistemas de criação, observou-se que o índice da razão N/L elevou-se significativamente em grupos expostos a condições ambientais adversas e a manejo intensivo, acompanhado de maior proporção de neutrófilos imaturos (desvio à esquerda) e de linfócitos atípicos. Esses achados reforçam que as alterações hematológicas e imunológicas revelam aspectos qualitativos, com potencial diagnóstico na avaliação do BEA (Ribeiro et al in preparation).
Essa abordagem, alinhada à epistemologia de Fleck, evidencia como o conhecimento sobre BEA é socialmente construído, incorporando novos "fatos científicos" que emergem do diálogo entre prática, teoria e contexto histórico. A inclusão de parâmetros imunológicos e hematológicos como indicadores reconhece a complexidade biológica dos animais e sua interação com o ambiente e as práticas de manejo, ampliando a base de evidências para a tomada de decisão ética e cientificamente embasada.
Nos tópicos seguintes, discute-se o papel das disputas conceituais, dos coletivos de pensamento e da linguagem na consolidação do BEA como campo científico e socialmente relevante.
- Coletivos de pensamento e disputas conceituais no campo do bem-estar animal
A consolidação do BEA como campo científico é marcada por tensões epistemológicas e disputas conceituais que refletem os interesses, valores e práticas dos diferentes coletivos de pensamento envolvidos. Segundo Fleck (2010), esses coletivos compartilham um estilo de pensamento, ou seja, uma forma específica de interpretar, validar e comunicar o conhecimento, construída historicamente e influenciada por contextos sociais e culturais.
No contexto do BEA, identificam-se ao menos dois coletivos principais em constante interação e por vezes em conflito. De um lado, o coletivo técnico-produtivo, mais conservador, tende a restringir o conceito de bem-estar à ausência de doenças e ao bom desempenho produtivo, priorizando indicadores quantitativos e objetivando a eficiência zootécnica (BROOM 2021). De outro, o coletivo ético-científico, fortemente influenciado pelas ciências sociais, pela etologia e pela biologia do estresse, amplia o conceito de BEA para incluir aspectos subjetivos, afetivos e comportamentais, considerando os animais como seres sencientes (DAWKINS 2017).
Essa disputa também expressa o que Kuhn (2013) denomina como resistência paradigmática, ou seja, a dificuldade de aceitação de novos referenciais e ferramentas científicas em campos estabelecidos. No caso do BEA, isso se evidencia, por exemplo, na adoção ou resistência a indicadores biológicos mais complexos, como os parâmetros hematológicos qualitativos discutidos neste ensaio. A aceitação desses indicadores, como a morfologia leucocitária e as alterações celulares, demanda uma transição gradual do estilo de pensamento dominante, incorporando novas compreensões sobre o sofrimento e a saúde animal.
A linguagem exerce papel central nesse processo. Como destacam Fleck (2010) e Latour e Woolgar (1997), o modo como os conceitos de estresse, sofrimento, dor e bem-estar são definidos, negociados e comunicados influencia diretamente tanto a formação de consensos quanto a manutenção dos conflitos entre coletivos. Portanto, a evolução do campo do BEA depende não apenas do avanço técnico-científico, mas também do reconhecimento explícito das dimensões sociais, culturais e linguísticas que permeiam a ciência e moldam sua legitimidade.
No último tópico, apresentam-se considerações finais sobre as implicações práticas e epistemológicas da integração entre os indicadores biológicos e a construção coletiva do conhecimento no BEA.
Considerações finais
A ciência do bem-estar animal (BEA), como evidenciado neste ensaio, constitui um campo em constante construção, permeado por disputas epistemológicas, transformações conceituais e desafios metodológicos. A integração entre os indicadores biológicos, como os parâmetros hematológicos e imunológicos quantitativos e qualitativos, e a perspectiva social, histórica e linguística proposta por Fleck, oferece caminhos concretos para avançar na compreensão e aprimorar a aplicação do BEA em sistemas alimentares.
Reconhecer o BEA como um saber coletivo, historicamente situado e moldado por contextos sociais, culturais e linguísticos, é fundamental para romper com visões reducionistas que limitam o sofrimento animal a aspectos exclusivamente produtivos. Ao incorporar indicadores acessíveis, como a avaliação morfológica dos leucócitos e os índices da razão H/L e N/L, amplia-se o repertório de ferramentas diagnósticas disponíveis, aproximando a ciência da prática e contribuindo efetivamente para a mitigação do sofrimento animal.
Sob a luz da epistemologia de Fleck (2010) e em diálogo com Kuhn (2007) e Latour & Woolgar (1997), compreende-se que o avanço do BEA requer a interação entre diferentes coletivos de pensamento, a abertura ao diálogo interdisciplinar e a constante revisão crítica dos paradigmas vigentes. Fortalecer o BEA é, portanto, um movimento que transcende a área biológica e alcança as esferas ética, política e social, reafirmando o compromisso com uma ciência sensível, plural e comprometida com a vida e capaz de influenciar positivamente a relação entre humanos e animais. Essa abordagem é especialmente urgente em países como o Brasil, onde os sistemas alimentares estão entre os maiores do mundo e coexistem desafios ambientais, desigualdades sociais e pressões crescentes para aprimorar o bem-estar animal de forma contextualizada e transformadora.
Que as reflexões e as evidências apresentadas contribuam para ampliar o círculo moral que abarca os animais, fortalecer o papel transformador da ciência e inspirar práticas mais humanas, éticas e sustentáveis nos sistemas alimentares que envolvem seres sencientes.
Referências
BØTNER, A.; BROOM, D. M.; DOHERR, M. G.; DOMINGO, M.; HARTUNG, J.; KEELING, L.; KOENEN, F.; MORE, S.; MORTON, D.; OLTENACU, P.; SALATI, F.; SALMAN, M.; SANAA, M.; SHARP, J. M.; STEGEMAN, J. A.; SZÜCS, E.; THULKE, H.-H.; VANNIER, P.; WEBSTER, J. & WIERUP, M. Scientific opinion on the use of animal-based measures to assess welfare of dairy cows. EFSA Journal, v. 10, p. 81, 2012.
BROOM, D. M. Farm Animal Welfare: a Key Component of the Sustainability of Farming Systems. Veterinarski Glasnik, 75:145–151. 2021. doi: 10.2298/VETGL210514007B.
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